Em ‘‘Mentiras que parecem verdades’’ (Summus Editorial, 134 págs.), Umberto Eco e Marisa Bonazzi mostram, através da análise de variados livros didáticos, que nos deparamos com mentiras no papel desde a mais tenra idade. O que é grave a valer, dada a potencial participação desses ‘‘equívocos’’ na formação da criança.
O livro refere-se a manuais de italianos, principalmente de iniciação em leitura, mas vale para muitos textos que frequentam as salas de aula brasileiras. ‘‘Somos pródigos em nosso Festival das Besteiras que Assolam o País – FEBEAPÁ’’, resume Samir Curi Meserani na apresentação da obra. ’’(...) Enquanto Lalá corre atrás de Lelé, Xerxes joga xadrez, Zeca toca Zabumba (...), a professora sorri. Seu rosto afável esconde o salário da fome e a submissão ideológico-curricular. De resto, professores, metalúrgicos e outros trabalhadores não entram em greve nas cartilhas’’, prossegue.
Eco e Marisa dividem por temas a abordagem da distância entre o maravilhoso mundo dos livros didáticos e a realidade que teima em rodear a criança. Citam o pobre, um fenômeno natural, que existe por si só, sem causas ou origens; o trabalho, cujos personagens ainda são o camponês, o marceneiro, o ferreiro, por cuja opção pesa o aspecto moral (‘‘em contraposição aos vagabundos que não trabalham’’); a Pátria, uma entidade abstrata, totalmente dissociada dos cidadãos que a compõem; a família, sempre idealizada, feliz, por mais marcada que esteja pela ‘‘extrema mas decorosa pobreza’’ e por aí vai. É a perpetuação do mais genuíno antagonismo a Paulo Freire. (AE)

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