CONSCIÊNCIA E ILUMINAÇÃO - Um dia no retiro zen budista
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de dezembro de 2013
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
Sem nunca ter praticado algo do tipo, me arrisquei a participar de um "Zazenkai", nome dado a um retiro zen budista de menor intensidade, de apenas um dia, voltado a praticantes não ordenados. Quando um leigo participa de uma atividade que não tem referência alguma, principalmente oriundo de uma cultura diferente, o resultado será, no mínimo, curioso. Sabia que teria meditação, que já havia feito em cursos de visualização por meio de gravações musicais. Mas, foi completamente diferente do que pensava.
Quem espera por um dia de relaxamento vai ficar decepcionado, pois isso está longe de acontecer. A posição da meditação exige muito esforço físico. Quem espera respostas ou manifestações espirituais, também. Como fui sem pretensão alguma e disposta a seguir todas as orientações com afinco, tudo era novo e bem-vindo. O retiro é dividido basicamente em momentos de meditação sentada de 30 minutos, palestras resumidas e serviços de limpeza, o samu. As práticas são pontuais e guiadas pelo uso de um sino.
Assim como na maioria das religiões, muitos rituais e simbolismos fazem parte do zen budismo, que vão desde movimentos simples com a mão, como o gasshô - uma expressão de agradecimento - ao jeito correto de sentar para a meditação, na posição da flor de lótus cheio (kekkahuza). Olhava e repetia atentamente cada gesto. O primeiro exercício é sentar virado para a parede em um pequeno banco ou almofada em formato redondo (zafu), com posição reta e imóvel, olhando para baixo com os olhos entreabertos. Durante esse tempo, temos que esvaziar a mente e não deixar que nenhum pensamento atrapalhe aquele instante. Isso vale para sensações do corpo e sons externos.
Ainda que a disposição estivesse presente, já na primeira meditação fui vencida pela dor e mal-estar, tendo que me retirar do ambiente. Isso porque, sentada sob os joelhos em uma espécie de banco minúsculo, não demorou para que as pernas começassem a formigar e a dor aumentar a cada segundo. As palavras do monge para esvaziar a mente e esquecer de tudo, sobretudo o corpo, pareciam impossíveis de ser atingidas naquele momento.
Logo depois, uma explicação sucinta do que estava por vir complementada de uma cerimônia de abertura. Em seguida, é momento da meditação caminhando, o kinhin, em que se faz o shashu, posição das mãos sob o estômago. Entre pequenos passos que são dados conforme a respiração, o mesmo exercício de limpar a mente durante a caminhada deve ser realizado. Fisicamente mais tranquilo, contudo, mais difícil de concentração dados os movimentos que teimam em roubar a atenção.
Serviços comunitários
Samu é o momento de realizar serviços comunitários, principalmente ligados à limpeza e manutenção do local onde o retiro acontece. Enquanto uns passam pano nos colchonetes, outros varrem o chão, aguam as plantas ou lavam a louça. A tarefa, segundo o monge, deve ser realizada mesmo que tudo pareça estar limpo e em ordem. É o que fazemos até o sino tocar novamente.
Hora de mais um zazen. A meditação seguinte foi realizada com menos dor, sentada de pernas cruzadas em uma almofada. Mas, agora, manter os olhos abertos do sono era mais difícil, até mesmo que esquecer da fome que começava a aparecer. A abertura dos olhos, semicerrados, é propícia para que venha a vontade de cochilar. Dito e feito, o sono venceu algumas vezes. Se estivesse em um mosteiro, um golpe de "bastão da compaixão" teria sido dado em minhas costas a cada adormecida. Ao final deste "exercício", a fome já tomava conta dos pensamentos juntamente com a dor no joelho pela posição.
No momento da refeição, uma sopa de legumes bem rala é servida numa tigela. Para isso, existe um ritual de entrega do alimento a cada um dos participantes que só podem comer, em silêncio, depois que todos são servidos. Caso queira repetir, a colher deve ficar virada ao centro. Como o café da manhã tinha sido feito muito cedo e havia uma tarde pela frente, não hesitei em pedir mais pouco, já que a sopa, apesar de saborosa, era bem restrita de legumes. Para ajudar na limpeza do utensílio, uma jarra de água quente é servida para ser usada e bebida também.
O incômodo das dores geradas pela posição, agora, estão no corpo todo. Por isso, resolvo testar o banco novamente em vez da almofada, já que outros participantes diziam ser mais confortável. Como cada pessoa é um ser único, não era o melhor para mim. Já com a almofada de volta, finalmente, consegui "desligar" por alguns instantes de tudo ao redor. Não foi tarefa fácil, pois até a sensação de "dever" esvaziar o pensamento não pode existir. Ao mesmo tempo, tudo ajuda a desconcentrar: do canto dos pássaros a própria respiração.
Grande parte das palavras do monge é dita em forma de metáforas, que precisam de interpretação. Talvez por isso, um iniciante ou leigo, sem qualquer conhecimento sinta-se um pouco perdido e confuso. No meu caso, senti a necessidade de leitura complementar para entender o propósito da prática. Verifiquei, ainda, que apenas boa vontade não é suficiente. Certamente, um desafio que deixou muitas dúvidas e a certeza da necessidade de disciplina e dedicação, pelo menos, para realizar o zazen.


