A pressão para oferecer um serviço cada vez mais humanizado, em oposição à realidade nem sempre acolhedora das ruas, somada à falta de efetivo e uma cultura organizacional da corporação pautada pelo excesso de militarismo, resulta em um dilema vivenciado diariamente pelos policiais militares. Diante do abismo entre os conceitos de cidadania que aprendem nos cursos de formação e o contexto da prática diária da função, eles manifestam através do estresse - que pode levar a comportamentos abusivos - as consequências desse conflito.
''O efetivo atual da Polícia Militar é o mesmo de quando ingressei na corporação em 1975'', compara o coronel RR (reserva remunerada) João José Ramirez Ribeiro Junior, assessor da presidência da Associação de Defesa dos Direitos dos Policiais Militares Ativos, Inativos e Pensionistas (Amai).
Segundo ele, a formação técnica e intelectual da tropa paranaense dá condições para que os policiais estejam bem preparados para realizar o atendimento das demandas rotineiras e situações de conflito sem cometer qualquer tipo de abuso. ''O problema é a falta de efetivo que leva o policial a trabalhar mais horas do que deveria, o que causa o estresse individual'', afirma, acrescentando que, nessas situações, o policial pode interpretar os fatos de maneira equivocada e agir com ''destempero''.
Outra causa das tropas estressadas, segundo o coronel, é o conflito entre as novas gerações e alguns comandantes que ainda carregam resquícios do comportamento que ele chama ''dos anos de chumbo'', referindo-se à ditadura militar. ''É uma polícia excessivamente militarizada, que causa estresse no menino de 18 anos que acabou de entrar e tem uma visão diferente. Eles (os mais jovens) enxergam a sociedade de uma outra forma, e nem sempre os comandos o veem com um soldado dos tempos modernos, que quer ter o direito de se explicar. O confronto de gerações traz dificuldades'', afirma.
Truculência
A opinião é compartilhada por Pedro Bodê, coordenador do Centro de Estudos em Segurança Pública da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Segundo ele, nos últimos anos foram incorporados aos cursos de formação da polícia temas como direitos humanos, mediação de conflitos e polícia comunitária.
''O que é ensinado, porém, não corresponde à realidade do quartel e da rua. Na prática, os policiais não têm condições de aplicar os princípios aprendidos porque a própria instituição, através de sua cultura organizacional, ensina a resolver com truculência. A cultura da polícia é militarizada e os policiais, cuja função é lidar com conflitos civis e cotidianos, não sabem fazer isso de forma que não seja militar'', diz.
O pesquisador lembra que as últimas manifestações policiais em prol de melhor remuneração e condições de trabalho já apontam para a necessidade de humanização.

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