Curitiba - Não confundir a palavra de ordem "sem partido" com um pedido pelo fim das agremiações políticas, ou com uma crise definitiva da democracia representativa (baseada em eleições e delegação de poder a políticos escolhidos pelo voto popular). Esta é a tônica da análise feita pelo cientista político Emerson Cervi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sobre a hostilidade de manifestantes a pessoas que optaram por empunhar bandeiras durante as marchas realizadas em todo o Brasil.
Para explicar seu ponto de vista, ele recorda que as manifestações começaram com o objetivo de reduzir a tarifa dos ônibus nas principais cidades do Brasil, mas acabaram reunindo reclamações variadas, relacionadas à melhoria de serviços públicos, ao enfrentamento da corrupção e em defesa da liberdade de expressão. "Essas pautas têm em comum uma insatisfação com o tipo de representação exercida pelos partidos políticos, que foram incompetentes em levar essas demandas adiante, que não funcionaram como correias de transmissão. Pelo contrário, até se tornaram barreiras nesse processo", pontua Emerson.
Na opinião do cientista político, a hostilidade contra as bandeiras de partidos políticos é uma crítica à forma como eles têm se comportado de maneira ineficiente. "Nenhum manifestante foi obrigado a deixar as passeatas, apenas tiveram que recolher as bandeiras. Quem participou dos atos vê na atuação fraca dos partidos políticos um pedaço do problema, portanto não querem vê-los ali, tomando parte do movimento", registra o cientista político. Ele não vê "fascismo" nos pedidos, já que ninguém foi impedido de se juntar individualmente às marchas.
Mesmo ressaltando que "não é possível fazer uma análise completa com os fatos ainda acontecendo", Emerson diz que a impressão que se tem não é a de uma iminente crise da democracia representativa. As manifestações não teriam como se transformar em ferramentas permanentes de democracia direta (sem a mediação das instituições), pois as pessoas ainda vão ter que lidar com os partidos políticos. "Ano que vem tem eleições, e isso não está ameaçado. Você ainda precisa ter pessoas filiadas a partidos políticos para serem candidatas. Não há tempo para mexer nessas regras agora", lembra o cientista político.
Perguntado se o ambiente hostil aos partidos políticos poderia marcar negativamente os jovens que participam pela primeira vez de manifestações públicas, Emerson afirma que não. Ele reforça que os manifestantes utilizaram novas formas de mobilização, que superaram a competência dos partidos e sindicatos, por exemplo. "No Brasil nós temos ciclos de mobilização social a cada 20 anos. Foi assim em 1984, 1992 e agora em 2013. Quem terá que aprender com essa nova geração somos nós, que tivemos nossas experiências num momento anterior", coloca o cientista político. Ele se refere à campanha pelas Diretas Já, antes da redemocratização, ao Fora Collor, e às manifestações recentes.

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