Concorrentes estrangeiros exploram deficiências da economia brasileira
Quase dois terços das roupas importadas consumidas pelos brasileiros atualmente vêm da China. Índia, Paquistão, Coreia do Sul, Taiwan, Indonésia, Malásia, Tailândia e Bangladesh são outros centros importantes de produção asiática.
Para o presidente da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), Roberto Chadad, a indústria está colhendo os frutos de erros cometidos no País nos últimos anos, entre eles a avaliação subestimada do Custo Brasil, falta de resultados nas reuniões realizadas em Brasília para discutir comércio exterior e custos de produção maiores que em outros países. Mão de obra, tributos em geral, matéria-prima, logística, juros dos empréstimos, multa por demissão de funcionário, transporte e pagamento de impostos antecipados são alguns destes altos custos, que tornaram-se grandes limitadores para o setor.
Chadad avalia que a situação é muito grave e que os governantes não têm feito esforços para revertê-la. "O setor está fora do índice de inflação, o que é confortável para o governo. Mas para a indústria isto é péssimo", critica. Para ele, as perspectivas não são nada boas. "A indústria nacional do vestuário vai acabar, como nos Estados Unidos. Ou vira varejo, ou fecha as portas", sentencia o presidente da Abravest. A alternativa de passar a operar no varejo já é, segundo Chadad, uma tendência. "Dos anos 90 para cá perdemos de 10 a 15 mil empresas produtoras, que passaram a atuar como prestadora de serviços, atendendo grandes redes e não se mantiveram porque as encomendas são irregulares, não há contrato de fidelidade."
PIOR MOMENTO
Para Chadad, a indústria nacional do vestuário nunca viveu um momento tão ruim. Ele garante que a associação tentou de todas formas minimizar os problemas, mas os desafios são muitos. Não há, por exemplo, matéria-prima em abundância para exportar em grandes volumes e de maneira regular o que é tendência lá fora. A mesma situação difícil, de acordo com o empresário, é vivida pelos setores de calçados, móveis, cosméticos e brinquedos. "A indústria está na penúria", define.
Também para a empresária e presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Curitiba e Região Metropolitana (Sindivest), Luciana Bechara, a atual política está inviabilizando a indústria do vestuário. A exemplo do presidente da Abravest, ela cita a falta de competitividade do fabricante brasileiro como a grande causa da crise no setor. "O último ano de crescimento do setor foi 2010. De lá para cá ou as indústrias tiveram resultados negativos ou ficaram estagnadas", informa a empresária, proprietária de uma confecção infantil em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.
Luciana Bechara cita algumas situações preocupantes: a queda do dólar, que estimula a importação de peças prontas; o aumento de pelo menos 10% ao ano do custo de produção nacional; a ausência de linhas de crédito para os pequenos comprarem novos maquinários e mudanças constantes na legislação. "95% das fábricas do Paraná são microempresas. Sem estímulo, muitos que antes produziam passaram a importar as peças prontas e tornaram-se distribuidores. Passaram de produtores a comerciantes", explica a presidente do Sindivest. Ela lembra, porém, que não há dados oficiais sobre esta migração, já que muitos não chegam a mudar o ramo de atividade que estão registrados junto à Receita Federal.
Luciana alerta que a falta de competitividade mundial da indústria brasileira abre as portas do mercado para a competitividade de outros países. "Hoje o nosso empresário não tem segurança, os novos passivos surgem a todo momento, encarecendo os produtos nacionais. E como o brasileiro está muito atento e acompanha os preços, vai atrás do que está mais em conta." (S.L.)





