Compulsão pelo Guiness move paranaenses
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sábado, 03 de março de 2001
Dimitri do Valle De Curitiba 
Entrar para o Guinness, o Livro dos Recordes Mundiais, virou mania paranaense. Basta a notícia de que um desafiante concluiu uma façanha que logo entram em cena outros candidatos dispostos a enfrentar aventuras ainda mais inusitadas. Curitiba serve como termômetro da perseguição pela fama instantânea que o Guinness oferece. A presença de personagens com este perfil é comum na cidade.
O representante comercial Adelfo Fortunato Zago, 48 anos, de Balneário Camboriú (SC), escolheu a capital paranaense por considerá-la uma vitrine nacional. Zago quer ser o andarilho que mais caminhou na face da Terra. Morei em Curitiba por seis anos na década de 70. A cidade é muito seletiva, exigente. A escolha para tocar o projeto aqui também foi uma ousadia, conta ele, que perambula diariamente pelo Passeio Público.
Zago diz que não quer apenas aparecer. O representante comercial afirma que tem uma missão a cumprir. Pretende provar que qualquer pessoa pode superar os próprios limites físicos e emocionais. O Guinness é uma possibilidade desse reconhecimento. O professor de psicologia social e do trabalho Sidnei Nilton de Oliveira, que trabalha na Universidade Federal do Paraná (UFPR), não entende desta maneira.
Para Oliveira, pessoas que se sujeitam a grandes desgastes físicos com a finalidade de conquistar a atenção do público ajudam a incentivar conceitos individualistas. Perceba que é sempre um desempenho individualista. E são raras estas pessoas que saem do individualismo, analisa. O professor diz que o Livro dos Recordes serve como instrumento para incentivar este tipo de postura na sociedade.
Ex-viciado em drogas, o vigia Márcio Bruskoski, 21 anos, escreveu uma carta que já tem 823,5 metros. Nela, a frase Eu te amo aparece 274.500 vezes. Estendida, a megamensagem é suficiente para chegar à porta da casa da estudante Viviane Leal, 14 anos, que o ajudou a superar os problemas causados pelos tóxicos. Bruskoski diz que está tentando se apresentar no Programa do Ratinho, do SBT, para ganhar uma casa, além de pedir ajuda para encaminhar seu feito à Inglaterra, país onde é editado o Livro dos Recordes.
O Guiness é um divisor de águas. De um lado valoriza a saúde e a curiosidade, mas também o da alienação, observa o psicólogo Oliveira. Ele reforça a tese dizendo que casos pitorescos destacados pela mídia captam melhor a atenção da população. Por ironia do destino, conclui, assuntos em escala de maior importância, como eleições e busca pela qualidade de vida, são ignorados e até viram motivo de folclore e piadas. Quando chega o voto, por exemplo, as pessoas estão domesticadas a uma outra realidade.
O estudante Rafael Pessoa, 22 anos, reconhece que circular por Curitiba a bordo de 120 ônibus com apenas um vale-transporte não foi o marco mais importante de sua vida. O estudante aguarda uma resposta dos editores do Guiness para saber se terá o nome registrado no livro. De repente tem outros desafios mais importantes que a gente precisa conquistar, diz Rafael, referindo-se a um emprego.


