Colonização exterminou a tribo
Antropóloga e pesquisadora do Museu de Arqueologia e Entologia da UFPR, Carmem Lúcia Silva estuda os xetás há seis anos e tenta resgatar a história da última tribo selvagem descoberta no Paraná. Para ela, os xetás são um símbolo do descaso, da omissão e do desrespeito com as populações nativas durante os processos de colonização no Paraná . Sempre houve violência contra os índios nas ocupações de terras, mas o caso dos xetás é mais grave porque aconteceu bem perto de nós, há menos de 50 anos, quando já se discutia, internacionalmente, os direitos humanos, diz Carmem.
Segundo a antropóloga, os primeiros registros da existência dos xetás no Noroeste são de 1948 e 1949 , quando os primeiros colonizadores chegaram na região. Entretanto, o primeiro contato com os índios só aconteceu em 54, na Fazenda Santa Rosa. Depois disso, funcionários do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e o professor da UFPR, José Loureiro Fernandes, fizeram expedições à região, mas só conseguiram contato com o grupo que já vivia na fazenda. Somente em 56 localizaram duas aldeias e puderam pesquisar e registrar os índios em seu habitat original. Dois indiozinhos que haviam sido capturados anos antes e estavam sendo criados por funcionários da Colonizadora Miyamura serviram de guia e intérprete. Na ocasião, o pesquisador Vladimir Kosalk fez as únicas imagens existentes dos xetás, cujo filme está no museu da UFPR.
Segundo a pesquisadora da UFPR, existem poucos registros históricos dos xetás. Tentamos resgatar a historia da tribo com base na memória dos sobreviventes e relatos de outros índios que já morreram. Esses relatos indicam que os xetás também foram vítimas de todo tipo de violência. Mulheres estupradas, crianças roubadas por famílias brancas, assassinatos por tiro ou envenenamento são algumas das práticas descritas por sobreviventes. Um índio chamado Nhengo que se juntou ao grupo da Fazenda Santa Rosa contava que jagunços da Colonizadora Cobrinco invadiram sua aldeia e mataram muitos índios.
Muitos xetás morreram vítimas de doenças e fome na medida em que os brancos invadiam suas terras e os encurralavam em áreas cada vez menores. Segundo Carmem, dezenas de índios foram colocados em caminhões da Cobrinco e levados embora não se sabe para onde. Esses índios teriam sido levados para reservas do Oeste e Sudoeste e a maioria morrido de doenças por não ter se adaptado ao clima frio daquela região. No entanto, Carmem Lúcia informa que dos registros oficiais consta apenas que cinco índios foram levados para reservas em Turvo e Pinhalzinho, no Oeste do Estado.
Os oito sobreviventes da tribo original (cinco homens e três mulheres) e cerca de 50 descendentes (filhos e netos de xetás com outros índios ou brancos) vivem hoje em reservas kaigangue/guarani ou em centros urbanos do Paraná, São Paulo e Santa Catarina. Todos lutam para se manter. Tiguá tem uma filha , Indianara, de 17 anos, fruto de um relacionamento com um homem branco e um neto, Willian, de um ano e sete meses. Já passou necessidade em Douradina e algumas vezes se manteve com ajuda de amigos. Em Umuarama, o salário mínimo de empregada doméstica é insuficiente para sustentar a família e ela depende de ajuda comunitária.
Segundo o presidente da Funai, Glênio da Costa Alvarez, a comissão tem prazo até o final de fevereiro para definir a área. Depois a Funai terá de fazer a desapropriação das terras. Alvarez acredita que até o final do ano os xetás terão sua reserva. Tiguá se empolga em voltar a viver no campo e ter seu próprio pedaço de terra para cultivar, mas não acredita que os xetás voltem a falar a língua ou praticar os costumes da tribo. Vamos ser agricultores, isto se o governo ajudar a gente a começar, prevê. Apenas quatro xetás ainda guardam na memória a língua e a forma de vida da tribo. Segundo Carmem Lúcia, a maioria dos sobreviventes tem interesse em preservar sua origem. Ela acredita que voltando a viver junto a nação resgatará aos poucos sua cultura.





