Os donos não consideram as peças exatamente como brinquedos, mas qualquer criança faria a festa tendo ao alcance das mãos os carrinhos, aviões e barcos de modelos tão variados. Nas mãos dos adultos, eles servem apenas para serem admirados. Montados e admirados. Mania de quem já cresceu, mas que não deixa de lado a paixão irresistível por esses ''brinquedinhos'', colecionados desde a infância.
Para os olhos de muitos, apenas um monte de aviõezinhos. Mas se olharmos fundo, encontramos nestas pequenas peças muito da história, da ciência e tecnologia. A evolução dos aviões usados na Segunda Guerra Mundial, é o que mais fascina o modelista Ely Torresin, diretor de uma escola de inglês em Londrina. Ele dedica um tempo, aliás, um bom tempo da vida, para as montagens das peças.
A coleção começou aos sete anos, quando ganhou de uma professora o primeiro kit de montagem. ''Adorei e continuei comprando os kits até os 15 anos'', contou Torresin, hoje com 38 anos. Na adolescência deixou a prática um pouco de lado, mas retomou a atividade depois de casado, aos 23 anos. E não parou mais.
Toda semana ele reserva a quinta-feira para a montagem das peças. O lazer, como define, tem início no começo da noite e só termina na alta madrugada. ''Até que o sono não chegue, vou montando as peças''. E a atividade segue um ritual. ''Abro um vinho, coloco uma boa música e trabalho na montagem dos modelos''. Numa única noite, Torresin trabalha com quatro ou cinco projetos de uma só vez. ''Você monta um pouco de um, depois do outro. É um hobby que relaxa e ajuda a descontrair. Uma terapia'', define.
Torresin chegou a montar vários modelos, por encomenda, enviados para a Itália e outros países. ''Agora sobra tempo apenas para os meus''. O momento reservado para as montagens das peças é resultado de um acordo com a família. Torresin é casado, tem três filhos pequenos, dois garotos de 10 e 4 anos e uma garotinha de apenas um ano e oito meses. O mais velho, Victor, já segue os passos do pai.
Ele já montou 12 peças, entre aviões, carros de exército e caminhões tanque de guerra, os preferidos do garoto, que já se aventura no hobby desde os cinco anos. ''Não é difícil. Tudo depende do nível do kit. Já montei até o nível três. O quatro e o cinco são mais complicados para mim'', revela o menino. ''Os menores ainda estão aprendendo a não mexer nas peças. São muito delicadas, quebram facilmente'', afirma Torresin, que considera a atividade importante para as crianças, já que desenvolve a coordenação motora, a concentração e o aprendizado da história.
Hoje, Torresin possui cerca de 100 modelos finalizados e outros 200 kits, ainda na caixa, aguardando para serem montados. ''Essa espera é que é interessante. Você olha o kit e fica imaginando quando é que vai começar a montar o modelo''.
Mas não basta apenas separar as peças da caixa e colar, de acordo com as instruções. Existe toda uma pesquisa, um estudo para que o modelo fique pronto. ''Pesquiso em livros para saber sobre a história, as cores exatas, a função de cada avião'', uma verdadeira aula de história.
Um modelo pode levar de um até três meses para ser montado. Por causa disso, o hobby não se torna caro. ''Em média, as caixas custam R$ 80. Os modelos mais baratos custam R$ 25 e os mais caros, até R$ 300''. Os kits são adquiridos em lojas especializadas ou pela internet.
A criatividade, a história e a evolução tão rápida dos modelos das aeronaves utilizadas na Segunda Guerra deixam o colecionador fascinado. ''É impressionante ver o desenvolvimento tecnológico neste curto espaço de tempo. Em apenas sete anos, você sai de um modelo biplano e chega a um caça invisível''.
Segundo Torresin, os modelos eram praticamente artesanais no começo da guerra e alguns não conseguiam nem voar. ''Tudo era feito com tecnologia manual e depois de criados, já eram colocados para guerrear''. Muitas aeronaves caíram e acabaram matando os soldados.
O mesmo acontecia com tanques de guerra. ''Um deles, foi testado num lago, mas quando os soldados foram guerrear, enfrentaram uma tempestade, com vento e muitas ondas no mar e acabaram afundando. O resultado é que os soldados que teriam a guarda de seus companheiros em terra, ficaram sem proteção e também morreram. Muita gente morreu até que se chegássemos a toda essa modernidade''.
Entre os modelos preferidos do colecionador está o Mustang, vedete do exército americano, réplica de um avião capturado pelos alemães e usado por eles na guerra. Também se destaca o primeiro caça à jato, fabricado em escala de produção. ''Desses tenho a coleção completa. São 10 modelos, tudo da Segunda Guerra''.
Mas a moto lagarta e o Ketten Kraftrad, avião usado para o transporte de cargas e artilharia leve, também são destaque. Outro modelo que chama a atenção é o Focker Wulf TA 174, um projeto alemão do final da guerra. ''Quando os alemães estavam prontos para produzir o avião em escala, os russos invadiram a Alemanha e copiaram o modelo, criando o Mig 15, usado até hoje''.
Muitos modelos de aviões criados na durante a Segunda Guerra não tiveram sucesso. ''Alguns gastavam muito combustível e não serviam como bombardeiros. O caça Lippish, por exemplo, era muito rápido. O piloto não conseguia atingir o alvo com as bombas, por causa da rapidez do avião''.
A paixão quase infantil pelos aviões, faz com que Torresin reserve um espaço especial na casa nova para os modelos já prontos e para os que ainda serão montados. Ali, a coleção poderá ser admirada por amigos e pelo modelista, cada vez mais fascinado pelos seus aviões.

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