Na casa de Rosa Dalva de Oliveira e do marido, Nelson de Oliveira, o carro na garagem, a máquina de lavar, os celulares no bolso e a nova mesa recém-entregue pelo caminhão de um grande magazine, comprados com o salário ganho pelo trabalho na construção civil, enquadram o casal do União da Vitória 6 na categoria''classe média''.
Ao serem questionados sobre o pertencimento à classe social, entretanto, eles acham graça e negam: ''classe média? Não! A vida até melhorou bastante, mas a gente se acha pobre demais'', afirmam. O principal motivo para a negação está nas condições de moradia. A casa, comprada em uma invasão, não tem documentos. Na rua sem asfalto, o trânsito de carros é complicado e a caminhada é longa até o ponto de ônibus mais próximo. A fossa construída em frente denuncia a falta de rede de esgoto. ''A prefeitura nunca corta o mato, é bem comum aparecerem cobras'', revelam.
Maria da Paz dos Santos, uma ativista social que mora há 24 anos no União da Vitória, viveu, no bairro, uma história de morar em barraco de lona, a evolução para a casa de madeira e, hoje, comemora o conforto da vida em casa de alvenaria equipada com computador, internet e eletrodomésticos.
Sobre o local onde gosta e tem orgulho de morar, porém, ela é categórica: ''Aqui tem ruas que são asfaltadas e outras não. No 'União 6' não tem rede de esgoto. Falta médico no posto de saúde e não tem escola para todo mundo. Acho que é uma favela'', afirma ela, que também não se reconhece como ''classe média''.
Paz, como é conhecida, denuncia que a falta de assistência às crianças é um dos mais graves problemas da periferia. Com vasta experiência em projetos sociais - hoje é coordenadora do Instituto de Educação Igapó - e tendo trabalhado como professora de costura no Centro de Socioeducação (Cense 2), ela sabe que a falta de opções de lazer, prática de esportes e cultura para as crianças e jovens pode selar um destino cruel para estes. ''Eles 'caem no erro' porque não são acolhidos'', diz.
Vista Bela
Leandro Claudino, de 31 anos, office boy e rapper na banda Família IML, mora com a esposa Michele, professora de educação básica, e o filho Gabriel, de 9, em um apartamento no residencial Vista Bela (zona norte). Vindo de uma casa que dividia com muitas pessoas, ele admite que, em termos de espaço e conforto, a vida melhorou ''cem por cento'' após a mudança. Também sabe que pode comprar carro, TV e eletrodomésticos, mas, a despeito das condições financeiras, não se considera ''classe média''. ''Eu recebi ajuda do governo para ter esse apartamento. Quem recebe esse tipo de benefício não pode ser considerado classe média'', acredita.
As famílias do Vista Bela, segundo ele, também não têm acesso a práticas esportivas, cultura e entretenimento. ''Ninguém sai daqui e vai passear no shopping. É muito longe e, além de tudo, não temos dinheiro para isso'', acrescenta o rapper, que planeja um dia viajar para Foz do Iguaçu com a esposa. ''Quando fazemos as contas, ficamos com medo'', diz.
Falta de escola, creche, serviços de saúde e estruturas que possam acolher crianças e jovens são outras reivindicações da população local, que assiste os mais novos se envolverem com drogas, gravidez precoce e abandono dos estudos por falta de oportunidades. ''Eu mesmo estou aprendendo a tocar violão aos 31 anos porque nunca pude ter aulas. Aqui no Vista Bela há muitos sonhos, mas falta motivação'', lamenta.
Apesar das críticas, ele não tem pretensão de se transformar em integrante da classe média tradicional e se mudar para um bairro central. ''Eu quero que o meu bairro se transforme num local melhor para viver'', espera. Pede, ainda, que as iniciativas para levar esportes e lazer às periferias respeitem a cultura local. ''Estamos cansados de gente que vem aqui dizer o que é melhor para a população, sem perguntar o que realmente queremos e precisamos'', enfatiza.

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