Clãs dominam política há 300 anos
Braga, Munhoz, Macedo, Beltrão, Camargo, Ribas, Correa, Guimarães. Quem nunca ouviu falar desses sobrenomes e quer entender a história da política paranaense, saber como foi a evolução da sociedade e quem influenciou no desenvolvimento do Estado, deve com urgência pôr seus conhecimentos em dia. São nomes que tiveram papel preponderante na construção do Estado, desde o período imperial, e continuam dominando a cena político-econômica até hoje.
Eles são o ponto de partida para a tese de doutorado do professor Ricardo Oliveira, do Centro de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR), agora transformada em livro. O Silêncio dos Vencedores exigiu um trabalho de pesquisa de quase seis anos e foi o tema do doutorado de Oliveira em Ciências Sociais na Universidade de Campinas (Unicamp), em São Paulo. O lançamento do livro, de quase 500 páginas, deverá ocorrer em maio.
Oliveira conta que a idéia da publicação surgiu porque não existem pesquisas sociológicas sobre a política paranaense. Não há livros, não há trabalhos porque a área de sociologia política na Universidade Federal é relativamente nova. Foi criada há uma década.
O próprio título traduz esse desconhecimento, pois faz alusão ao silêncio voluntário dos grupos que dominam a política paranaense, e cuja classe dominante tem uma grande continuidade. A história de 60 destas famílias começa há cerca de 300 anos, quando surgiu o povoamento das vilas de Curitiba e Paranaguá, no Litoral do Estado. A partir dos primeiros bandeirantes, Oliveira faz uma análise genealógica de mais de dez gerações e acompanha boa parte da evolução da elite política paranaense, traçando seu perfil.
A obra mostra que a estrutura de poder começou com a criação de sesmarias coloniais, nos séculos 17 e 18. As sesmarias eram concessões de terras por parte do Estado e caracterizavam a estrutura fundiária da época. Os beneficiários dessas concessões construíram a economia da região no litoral a da farinha de mandioca e, no planalto, a mineração e a pecuária. E deram o ponto de partida ao crescimento econômico do Estado.
Esse desenvolvimento atinge seu ápice com o ciclo da erva-mate, a partir do século 19. A cultura ervateira ditou a mudança no perfil da produção, gerando riquezas, principalmente no Sul do Estado, onde se localizavam as plantações. Marcou também o começo da industrialização do Paraná. Nessa época, a colonização do Estado era restrita à região do Litoral e ao Centro-Sul principalmente Paranaguá, Curitiba, São José dos Pinhais, Lapa, Guarapuava, Castro e Palmas.
O livro de Oliveira acompanha as famílias que dominavam essas atividades. Com a criação da Província do Paraná, em 1853, os grupos aderiram formalmente ao Partido Conservador, de apoio ao poder central. O objetivo da união era controlar o avanço do liberalismo com a Revolta Farroupilha, no Rio Grande do Sul, e a Revolta Liberal de 1842, em Sorocaba (SP). O Paraná surge com um perfil conservador, de apoio à ordem imperial, porque esta foi a condição exigida para a criação da província.
A partir daí começam as transformações no Estado, que se aceleram com a imigração, em meados do século 19. O importante da minha tese é que o trabalho identifica cerca de 60 grupos familiares envolvidos nesse projeto, ao longo de várias gerações. Entre os nomes estão os Correa, os Guimarães, os Camargo, os Macedo, os Braga e os Munhoz, cujas famílias têm representantes até hoje no poder, relata.
Mais do que em outros Estados, a onipresença dos mesmos grupos rendeu algumas situações peculiares. Em dois momentos da história paranaense recente, por exemplo, representantes de uma mesma família detinham os três principais cargos na estrutura do poder. Foi assim em 1950, quando Bento Munhoz da Rocha Neto era governador do Estado; José Munhoz de Melo, presidente do Tribunal de Justiça; e Laertes Munhoz, presidente da Assembléia Legislativa. O exemplo se repetiu em 1979, quando Ney Braga era governador; Marino Brandão Braga, presidente do Tribunal de Justiça; e Fabiano Braga Cortes, presidente da Assembléia Legislativa.
De acordo com o professor, as estruturas atuais de poder devem se manter nas próximas décadas. Mas ele ressalta que a urbanização do Estado e o surgimento de cidades-pólo no interior podem contribuir para mudanças. As transformações, contudo, se processam de forma muito lenta.
Para entender o processo sob a perspectiva histórica, a sociedade parananese precisa conhecer suas elites e o livro mostra isso sem maniqueísmos, segundo ele. Pois, se por um lado o familismo contribuiu com o desenvolvimento e com o progresso do Estado, por outro ajudou a manter a estrutura oligárquica, como todos os problemas que isso acarreta. Tivemos ao longo destes três séculos um dos maiores crescimentos do País mas, ao mesmo tempo, muitos problemas com nepotismo, concentração de renda e de terras, conclui Oliveira.





