Cigarro paraguaio usa mesma logística do tráfico
A Delegacia da Polícia Federal de Guaíra apreende semanalmente duas a três carretas lotadas de cigarro contrabandeado. Cada uma delas leva em média mil caixas de cigarro, com 50 pacotes cada um (uma caixa, portanto, contém, 10 mil unidades). O volume assustador do que não passa é uma pequena parte do que dribla a fiscalização. A produção no Paraguai cresce ano a ano e o principal mercado consumidor é o Brasil.
Com o cigarro brasileiro cada vez mais caro por causa de uma política federal de aumento das alíquotas de impostos, o consumo do produto contrabandeado não para de crescer. "O volume que passa é muito grande. Hoje o contrabando de tabaco tem uma força econômica muito grande", admite o delegado da PF, Valcley Rubens Vendramin. Só em Guaíra, a PRF apreendeu quase 11,5 milhões de maços de cigarros em 2013, quase sempre transportados em carretas. Em Foz do Iguaçu, o volume é semelhante, mas as quadrilhas preferem trafegar pela BR-277 em veículos de passeio ou utilitários. Nas duas regiões, o Lago de Itaipu é parte da rota, com a ação de jovens barqueiros que abarrotam pequenas embarcações para transpor a fronteira molhada. Nas duas margens, para chegar aos portos clandestinos, as quadrilhas usam veículos com boa tração que se deslocam até a rodovia e seguem viagem ou são usados como intermediários para carregar as carretas.
Todas as autoridades policiais ouvidas pela FOLHA afirmam que contrabandistas e traficantes trabalham em mundo paralelos e que não usam os mesmos portos ou as mesmas embarcações. Mas as fontes concordam que a logística usada pelos criminosos é a mesma, com algumas estratégias em comum. Para evitar perdas, tanto o tráfico contra o contrabando arquitetam rotas e a partir daí montam redes de olheiros, espalhados à margem do lago, nas estradas rurais que ligam os portos clandestinos às rodovias. São normalmente jovens cooptados em favelas e em bairros pobres, que ganham R$ 100 por dia. Eles usam motos e radiocomunicadores. Não portam armas para chamar a atenção. Há ainda os que ficam nas copas das árvores na beira das rodovias, monitorando a movimentação das viaturas. São peças-chave no jogo de gato e rato que se transformou a região.
Outra figura que também marca tanto a logística dos cigarreiros quanto a dos traficantes, é o batedor. Da mesma maneira que os olheiros, os batedores são os olhos das quadrilhas na estrada. Nas abordagens das viaturas, tem a missão de atrapalhar a ação policial. Os policiais rodoviários federais alertam que o trabalho é mais difícil a cada dia, especialmente pela agressividade dos batedores, que jogam os veículos contra as viaturas.
A organização das quadrilhas permitem também o pagamento de fianças quase que automaticamente. Em um dos casos, a pena aplicada foi de R$ 50 mil, conta um patrulheiro, e menos de duas horas após o flagrante, já tinha sido paga. Em muitos casos, presos à burocracia, os policiais ainda nem acabaram de concluir os trâmites do flagrante e um advogado já está a postos para defender o cliente. (L.F.M.)





