Técnica de criação de óvulos em laboratório está sendo desenvolvida em São Paulo por pesquisador húngaro, após três anos de estudos em parceria com médico tcheco especialista em reprodução humana
A ciência pode ter encontrado a saída para que toda mulher possa sentir os prazeres (e os desconfortos) de uma gravidez. Uma nova técnica está sendo estudada em São Paulo e pode acabar com a frustação de mulheres que não possuem óvulos ou os tem mas são de má qualidade, o que impossibilita a geração de filhos.
Uma pesquisa inédita desenvolvida na Clínica e Centro de Reprodução Humana Roger Abdelmassih, em São Paulo, pelo pesquisador húngaro Peter Nagy, indica que a gravidez dessas mulheres poderá ser uma realidade a partir da criação de óvulos em laboratório. Desenvolvida em parceria com o médico tcheco Jan Tesarik, especialista em reprodução humana, a novidade surgiu há três anos, em Roma, enquanto faziam experimentos na área de transferência de núcleos de células.
A partir de uma célula diplóide (com 46 pares de cromossomos) de uma paciente sem óvulos e do citoplasma (membrana que envolve o núcleo celular) da célula de uma doadora, os pesquisadores conseguiram chegar ao óvulo. ‘‘Com essa técnica, teoricamente, qualquer mulher poderá ter filhos’’, avalia Nagy.
A técnica é relativamente simples. O núcleo da célula da doadora é retirado, preservando-se apenas o citoplasma. O próximo passo é injetar as células somáticas (com 46 pares de cromossomos) da paciente no citoplasma da doadora. Esse núcleo diplóide passa por uma separação, ficando apenas 23 pares de cromossomos (núcleo haplóide), ou seja, um óvulo perfeito.
De acordo com Nagy, a experiência continuou com a fecundação do óvulo pelo processo de fertilização ‘‘in vitro’’. Por questões éticas, o embrião foi congelado. Ainda não se sabe como a reprodução celular irá se processar antes de fazer a transferência para o útero da paciente. Segundo o pesquisador, as chances de sucesso devem variar entre 30% e 40% por tentativa, porcentual semelhante a outras técnicas de reprodução artificial.
Antes da aplicação em humanos, a técnica está sendo aplicada em vacas, em parceria com a Faculdade de Medicina e Veterinária da Universidade de São Paulo (USP). Pelo mesmo método realizado em humanos, o ‘‘óvulo perfeito’’ foi inseminado por um espermatozóide de um boi doador. O embrião se formou e foi acompanhado por 72 horas. Foi observado que houve um processo natural de divisão celular do animal e de seu desenvolvimento, o que evidencia que a experiência também pode ser bem sucedida em humanos.
O pesquisador húngaro faz questão de frisar que seu procedimento não se trata de clonagem. A técnica, ao contrário da clonagem, necessita de material genético de duas pessoas: o óvulo que se forma precisa ser fecundado por um espermatozóide. ‘‘A clonagem de humanos não é uma boa idéia’’, pois não se conhece todas as suas implicações’’, diz Nagy . ‘‘Clonagem, só no campo agrícola e com muita responsabilidade’’.

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