Primeiro de Maio (60 km ao norte de Londrina), cidade essencialmente agrícola com pouco menos de 10 mil habitantes, vive uma situação emblemática: mesmo tendo colhido uma das melhores safras de grãos da história do município, os agricultores afirmam que não tiveram lucros com a venda da produção, por causa do baixo preço da soja no mercado. Mesmo assim, o giro econômico no comércio da cidade melhorou desde que a produção começou a ser vendida.
Conforme informações do escritório da Emater-PR em Primeiro de Maio, a dependência comercial à agrícultura chega a 90%. O município colheu cerca de 53,5 mil toneladas de soja, o que significa um aporte financeiro de R$ 14,3 milhões. ‘‘Este ano, tivemos uma safra praticamente recorde, com quase 900 mil sacas’’, destaca o engenheiro agrônomo da Emater, Augusto Edson Evangelista. Em compensação, o preço da soja caiu: a média histórica de US$ 10,00 a saca não se confirmou e o produtor teve que se contentar em vender o produto a US$ 7,43.
Colhida a soja, o agricultor se apressou e plantou o ‘‘milho safrinha’’, que começa a crescer mas já enfrenta problemas com a falta de chuvas.
O produtor José Massato Hara, que cultiva soja e milho há quase 30 anos, reclama que o que ganhou este ano serviu para cobrir as dívidas contraídas nas duas safras passadas, prejudicadas por geadas e o tempo seco.
Este ano, sua produção chegou a 23 mil sacas mas, ‘‘por enquanto, não vai dar para investir em nada’’. A única novidade na fazenda de 190 alqueires é a construção de um pequeno barracão para guardar as máquinas e equipamentos que comprou há dois anos.
Outro produtor que vai utilizar os recursos da produção deste ano para pagar dívidas é Israel José da Silva. ‘‘Já vendi praticamente toda a minha produção e deu só para cobrir as contas’’, afirma. Além de soja e milho, ele cultiva café, mas também reclama que o valor de mercado está muito baixo para o produtor. ‘‘Consigo receber somente R$ 100,00 o saco limpo, o que é muito pouco. Só o custo da colheita fica em metade disso’’, informa o produtor.
O comerciante do setor de material de construção Marcos Garcia aponta que o movimento da loja tem melhorado com a negociação da safra. Mas hoje em dia, as vendas estão divididas entre agricultores e os ‘‘chacreiros’’, que tem ajudado bastante o comércio local. Com o lago que se formou em função da construção da Hidrelétrica de Capivara, em Porecatu, o turismo vem ganhando fôlego e já começa a interferir na economia da cidade.
Ele também concorda que a produção deste ano foi uma das melhores já vistas, mas por causa dos resultados ruins das duas últimas safras, o dinheiro deve demorar um pouco para circular. ‘‘A perspectiva é que melhore mais a partir do mês de maio’’, comenta.
O gerente de uma loja de móveis, Timóteo Rodrigues Silva, revela que o mercado começou a reagir nesta primeira quinzena de abril. ‘‘Esperamos melhoras daqui para frente’’, diz.
De acordo com o comerciante, os produtos com maior saída são os eletroeletrônicos, como aparelhos de TV e de som, além dos móveis. ‘‘Os agricultores, nesse ano, estão preferindo comprar à vista e aproveitando o desconto, do que deixar o dinheiro aplicado.’’
Outro empresário do setor de móveis, João Conti, informa que 80% dos agricultores que compram no seu estabelecimento também preferem pagar à vista, com a safra. ‘‘O movimento já cresceu quase 30%’’, esclarece Conti. A maior procura é pela linha de móveis residenciais.

mockup