'Chegou a hora de recuperar o que é nosso', afirma líder
Lúcio Flávio Moura
Enviado a Tamarana
Antes mesmo de seu desfecho, a luta dos caingangues da Reserva Indígena de Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina), para evitar a construção de um complexo de hidrelétricas no Rio Tibagi, já pode ser considerada um marco na história da tribo.
As reflexões provocadas na comunidade reconhecida pelo esforço bem-sucedido de manter hábitos e tradições de seus ancestrais pelas comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil podem ser o combustível de uma resistência vitoriosa ou o embrião de uma nova bandeira das atuais e futuras gerações, mesmo em caso de derrota.
Comemorar o quê? Séculos de matança, dominação, exploração. O que temos que fazer é lutar para que esta situação não continue. Vamos começar pelas hidrelétricas. Não permitiremos que os brancos tragam doenças, prostituição, que alague nossas árvores, nossa área de colheita, de caça, de pesca. É uma questão de sobrevivência, discursa Lourival Rén-váj de Oliveira, 43 anos, filho da reserva e presidente do Conselho Indígena do Norte do Paraná, entidade que reúne caciques de todas as tribos da região.
Pelo projeto da obra, o reservatório da Hidrelétrica de São Jerônimo a mais próxima da comunidade atingiria 20% da área da reserva, segundo os índios, a parte mais rica em biodiversidade. Outro temor é a instalação do canteiro de obras da hidrelétrica a três quilômetros da aldeia, que traria para o dia-a-dia da tribo um intercâmbio direto com os brancos. Para eles, junto com os operários surgiriam problemas que a comunidade se orgulha de ainda não ter: prostituição, miscigenação, epidemias e alcoolismo.
A terra dá um sentido à vida do índio, uma coisa que o branco ainda não entende e por isso que eles vão lutar pela integridade do território até o fim, diz Edgar Pypcak, 38 anos, técnico em enfermagem que trabalha e mora há 10 anos na reserva.
Todos os orgãos ambientais nos impedem de derrubar a mata, de cultivar na margem do rio e nós respeitamos. Agora, onde tem nossa caça, nosso palmito, nosso mel nativo e nossas frutas, eles querem destruir. Não vamos aceitar esta injustiça porque aqui dentro quem faz as leis agora somos nós!, promete Oliveira.
Quando era criança, qualquer lugar que eu ia na reserva ou nas redondezas conseguia pescar e caçar. Com o desmatamento, o tráfico de animais silvestres e a poluição de rios com agrotóxicos a gente só perde tempo e volta com as mãos vazias. Nem pajé existe mais porque ele não conseguiria achar as plantas e ervas de antigamente. O branco não sabe conservar nada e o índio paga por isso, lamenta Ataíde Marcolino, ex-cacique que foi alcoólatra e hoje é evangélico.
Além de pleitear a integridade de uma área vital da reserva, os kaygángs da Apucaraninha querem as terras de seus antepassados, que no início do século ocupavam um área de 14 mil alqueires na chamada Fundação Velha, localidade a 28 km da atual aldeia. Fomos despejados de lá. Chegou a hora de recuperarmos o que é nosso, avisa o líder.
A preocupação que motiva a reocupação da área antiga é a escassez territorial, aliada a explosão demográfica na aldeia, cujas recentes estatísticas da Funai é alimentada por taxas anuais de crescimento de 5%. Neste ritmo, a cada 10 anos a população, que atualmente é de cerca de 1,2 mil pessoas, duplicará.
Pypcak lembra que o baby-boom da tribo deve ter vida longa, já que nos últimos cinco anos, a taxa de mortalidade infantil se manteve muito próxima de zero e as famílias continuam a cultivar o hábito de terem muitos filhos.
Para as duas ações de conquista territorial, os índios preferem não revelar qual estratégia será adotada. Mas vamos agir antes do que os brancos imaginam, garante Oliveira.
Royalties A paciência que torna viável as negociações diplomáticas entre os índios e a Prefeitura de Tamarana também está se esgotando. Segundo os índios, a tribo não recebeu nenhum centavo da parte que lhe cabe dos royalties ecológicos repassados ao Município. A lei, em vigor desde 1996, indeniza os municípios que possuem áreas de preservação ambiental. No caso de reservas indígenas, parte dos recursos devem ser enviados às tribos.Os caingangues buscam formas de sustentação econômica. Entre elas, o ecoturismo, que tem estudos sendo desenvolvidos para a região
Josoé de CarvalhoSAUDOSISMOO ex-cacique Ataíde Marcolino sonha, na porta de sua casa, com a infância, quando a caça e a pesca era farta na reservaJosoé de CarvalhoNo dia-a-dia a índia abana o milho produzido na reservaJosoé de CarvalhoMeninos caingangues brincam com brinquedo de branco: a pipaJosoé de CarvalhoUma das lutas dos moradores da reserva Apucaraninha é preservar a mata nativa. Cerca de 20% dela estão ameaçadas pela construção de hidrelétricaO que temos que fazer é lutar para que esta situação não continue





