Ana Paula Vosne Martins, professora do Departamento de História e coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade Federal do Paraná (UFPR), entre os principais acontecimentos que influenciaram a maternidade estão as mudanças macroestruturais impulsionadas pelo capitalismo, com suas ressonâncias sociais, como o aumento da pobreza urbana e rural e a precarização das condições de existência das classes trabalhadoras. "Ser mãe e trabalhadora para a maioria das mulheres não tinha nada a ver com a produção do discurso das classes médias que apresentavam a maternidade como um fato natural envolto em beleza e emoções positivas, como o amor e o altruísmo."

Porém, de acordo com a professora, a reorganização ideológica da sociedade burguesa estabeleceu que o lugar das mulheres, por sua natureza mais frágil e sensível, deveria ser o lar e a maternidade. "Esse lugar não era desvalorizado pelos discursos, pelo contrário, era um lugar valorizado moralmente, um complemento ao lugar público e político dos homens. O lar seria o lugar de descanso, de recuperação das forças físicas e morais dos homens, expostos aos ricos cotidianos que a exposição no mundo do trabalho e das múltiplas relações sociais e políticas podiam trazer. Essa valorização da maternidade representou um fechamento para as mulheres das classes mais privilegiadas em seu lar-refúgio, com seus filhos e serviçais."

Ana Paula lembra que o elo amoroso entre mães e filhos se tornou uma experiência compulsória pela qual todas as mulheres consideradas normais deveriam passar, a começar pela amamentação e passando pela educação infantil e uma série de cuidados intensivos com a infância. "Penso que a ansiedade materna em fazer tudo certo, em ser a mãe vigilante, aquela que tudo antecipa para que a segurança e o bem estar dos seus filhos estejam garantidos, é um produto histórico dessas transformações ideológicas dos papeis de gênero."

Outro impacto importante nas experiências da maternidade, para a estudiosa, foi a contracepção acessível às mulheres e a possibilidade de escolha não só quanto ao número de filhos, mas em relação à própria maternidade. De acordo com a professora, o desenvolvimento de métodos contraceptivos químicos com a comercialização da pílula anticoncepcional e o debate feminista sobre a politização da vida privada e do corpo, tiveram um impacto considerável sobre a maternidade, não mais vivida como um destino, mas como uma escolha baseada em critérios afetivos e racionais. Muitas mulheres passaram, inclusive, a adiar a maternidade.

Hoje, observa Ana Paula Martins, há muitos desafios a serem vencidos. Em primeiro lugar, ela acha que as mulheres precisam aprender "a desfazer a máscara da mãe feliz a qualquer preço." Para a pesquisadora, a maternidade pode ser uma experiência fascinante, mas ela não segue um roteiro de cinema, nem de novela, nem de romance água com açúcar.

O empoderamento da mãe como mulher é outro grande desafio, segundo a docente da UFPR. "Uma mulher que passa pela experiência da maternidade não deixa de ser mulher, trabalhadora, escritora, artista, enfim, as tantas outras coisas que nós somos, para ser somente mãe." A maternidade, de acordo com Ana Paula, pode ser uma experiência fascinante de crescimento individual, de aprendizado de vida e de descentramento do eu, mas não é o eixo a partir do qual a vida passa a girar. (S.L.)

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