Centenário do Dia das Mães - A mesma condição, outros papeis
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de maio de 2014
Carolina Avansini e Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Há 100 anos, quando o Dia das Mães foi criado nos Estados Unidos, a realidade vivida pelas mulheres e sua condição de mães pouco tinham a ver com a rotina materna dos dias atuais.
A dedicação integral às tarefas domésticas, a impossibilidade de planejar a quantidade e o momento da chegada dos filhos, a dependência financeira do marido e a ausência de poder sobre seus corpos eram apenas algumas das características femininas que definiam a maternidade. Neste último século, que foi pródigo em conquistas (veja infográfico na página 10), as mães ganharam autonomia e aprenderam a dividir a imensa responsabilidade de moldar novos seres humanos.
Segundo Maria Cecília Schettino, psicóloga clínica e perinatal e autora do Blog Maternidade no Divã, que discute os dilemas maternos, os conceitos de família e maternidade, como conhecemos hoje, são uma construção sociocultural que se modificou de acordo com os contextos históricos de diferentes épocas. "O conceito de 'instinto maternal', tão universal e definitivo como consideramos na atualidade, é muito recente", explica.
Conforme a especialista, foi a partir da reforma higienista, na primeira metade do século 19, que a função da mulher tornou-se cuidar dos filhos. "Essa foi uma tentativa do Estado, aliado aos médicos, de civilizar as cidades, de formar cidadãos produtivos que garantissem o progresso do país", acrescenta, lembrando que foi nesta época que a mulher passou a ser reconhecida como "formadora de homens", tornando-se público-alvo dos tradicionais manuais que ensinam a ser boa mãe e boa esposa.
Maria Cecília ressalta que, para surpresa de muitos, o nascimento do bebê é um fato carregado de mudanças para a mãe, e a forma como isso é vivido depende da história, da personalidade e sensibilidade do casal e de todos à sua volta. Segundo a psicóloga, o maior objetivo das mães que hoje já são avós e bisavós era criar homens produtivos e mulheres capazes de cuidar da casa e dos futuros filhos. "O afeto não tinha muito espaço para ser expressado. Apesar de já ser uma relação mais amorosa do que nos séculos anteriores, em nada se compara à relação entre mães e filhos hoje em dia", diz. Foi só a partir dos estudos sobre fetos e bebês, a descoberta de suas competências e de que, desde o ventre materno, eles se relacionam com o mundo exterior, que os pais começaram a dar mais valor ao relacionamento e à proximidade com os filhos.
Os grandes dilemas da maternidade, conforme ela, vieram com a entrada da mão de obra feminina no mercado de trabalho. "A mulher atual sofre com alguns sentimentos novos, como os dilemas sobre retornar ou não ao trabalho depois da licença maternidade e a culpa por sentir que está abandonando o filho ou perdendo marcos importantes de seu desenvolvimento", explica, enfatizando que como a maternidade é pintada pela mídia e pela sociedade como uma experiência exclusivamente encantadora e prazerosa, muitas mulheres sentem-se inadequadas e "menos mães" por terem sentimentos negativos. "Ser mãe é lindo, a maternidade é encantadora, os filhos são apaixonantes
Mas é natural a mulher sentir-se cansada, irritada, esgotada e pressionada. O amor materno é ambivalente, ambíguo e complexo", esclarece.
Na família de dona de casa Maria Gotuzo Marques, de 78 anos, as mudanças que influenciaram a maternidade nas últimas décadas são facilmente percebidas. A matriarca, que teve o primeiro filho aos 16 anos, enfrentou uma gestação, em média, a cada dois anos. "Não contava muito com a ajuda do meu marido. Morávamos no sítio, a rotina era muito cansativa. Não tínhamos luz elétrica, nem água encanada, tinha que lavar a roupa da família em uma mina, era tudo muito difícil. Também não tinha lazer, a gente quase não saía de casa. Ficava anos sem ver minha mãe, que morava na cidade", relembra Maria, que criou cinco filhos.
Hoje a vida está mais tranquila para esta bisavó de 14 (já há mais um a caminho) e avó de 13. Desde os anos 1950 mora na cidade, e embora lembre com nostalgia do tempo em que a violência não chegava a ser uma ameaça constante e que todos se conheciam no quarteirão, protegendo uns aos outros, acha que a situação melhorou muito para as mães modernas. "Hoje as mulheres têm como evitar a gravidez, planejar os filhos, estudar. Elas têm mais conforto e são mais independentes", constata.
Entre Maria e uma de suas filhas, a funcionária pública Lúcia Regina Marques Giordano, 51 anos, há quase um abismo. A primeira filha de Lúcia nasceu há 33 anos. Depois vieram outras quatro, mas ela nunca deixou de trabalhar fora. "Só interrompi a faculdade por alguns anos." Marcelle Giordano Bosso, sua filha mais velha, cresceu vendo a mãe sair de casa diariamente para trabalhar, e nunca sequer cogitou não fazer um curso superior. Apenas quando a filha Isabela, de 4 anos, nasceu, é que a arquiteta Marcelle desejou ficar um período sem trabalhar. "Mas acabei voltando depois de dois meses e meio."
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