Cenário é de sordidez e desilusão
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de junho de 2001
De Londrina 
O cenário poderia ser bucólico se a situação de miséria e ignorância não enfeiasse tudo, transmitindo apenas sordidez e desilusão. Um corrégo que poderia ser cristalino, uma pequena e artesanal ponte separando dois mundos. Parte da Vila Marízia, a favela mais antiga de Londrina, continua lá com seus barracos miseráveis.
Para se chegar ao local é preciso passar pela Vila Marizia 2, às margens das avenidas Brasília e 10 de Dezembro, onde casas populares foram erguidas em 1994, num projeto da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab). O projeto tirou parte da população da favela das condições de habitações subnormais (barracos de madeira e lona).
Mas para cada casa de alvenaria que era construída, dois novos barracos surgiam. Hoje, a Vila Marízia está dividida. O Córrego Bom Retiro é o divisor das águas. De um lado, a Marízia urbanizada e maquiada. De outro, a original, feia e desdentada.
Na Marízia 1, 62 famílias lutam dia a dia para sobreviver. É o caso de Maria Benedita Apolinário, 40 anos. Ela, o marido, oito filhos com idades entre 7 e 18 anos e uma neta de 2 anos se espremem em três cômodos construídos com restos de tábuas, lonas e lata enferrujada. No quintal de terra batida, o esgoto a céu aberto corta a área em direção ao córrego. Ali brincam as crianças menores, sujas, descabeladas, narizes escorrendo.
Maria Benedita e a família mudaram de Cambé para Londrina há dois anos, em busca de uma vida melhor. Nem ela nem o marido sabem ler. A gente teve que vir, né. Tá ruim aqui, mas era pior lá. O sonho acabou se transformando em uma dura realidade. Ninguém conseguiu emprego fixo. Hoje, o marido faz bicos e os filhos mais velhos catam papel nas ruas. Renda mensal, Maria Benedita nem sabe o que é. Quando todos conseguem algum trabalho, trazem para casa no máximo R$ 30,00. Aí, todos comem. E se não há trabalho? Num come, ué, resigna-se. T.E.


