Bem diferente da mulher da música, Amélia Pettinati da Silva, não passaria e nem deixaria ninguém passar fome ao seu lado. Teve dois casamentos (ela diz que amou mais o segundo, o sorveteiro) e criou os filhos com o fruto do papel, papelão e lata. Uma das filhas, Idalina, há cinco anos conheceu um mexicano e mudou-se de vez para o México. ''De vez em quando ela liga para mim'', conta. Amélia guarda como uma relíquia um envelope postado de San Jose Tetez, Apizaco, México, de onde a filha lhe mandou uma ''lembrancinha''.

Totalmente o oposto da Amélia de Mário e Ataulfo, a catadora de Londrina vira as costas para as peças que o destino lhe prega. Há 23 anos, teve que tirar a mama direita, afetado por um tumor maligno. Ela afirma que não queria fazer a mastectomia. ''Conheço uma pessoa que fez várias cirurgias e não precisou tirar o seio'', comenta. Debaixo da camiseta, sob o sutiã, alguns panos enchem o lugar onde hoje Amélia traz uma grande cicatriz. Traumas, ela diz que não ficou nenhum, mas se ressente das sequelas da cirurgia. O braço direito apresenta um inchaço fora do comum, que ela atribui à doença que teve e aos anos que viveu puxando carrinho de mão. Para trabalhar, ela usa uma meia elástica remendada. ''É muito cara para ficar comprando sempre''. De uns tempos para cá tem reclamado da saúde frágil. Os médicos detectaram osteoporose e ela acumula ainda uma hipertensão de anos.

Operária irrepreensível, conquistou a simpatia dos porteiros de prédios da zona sul e de donos de lanchonete, que guardam para ela papel e papelão. Ela diz que nem se lembra mais de quando precisou comprar roupas, tantas que são as doações que recebe. De vez em quando, ao chegar da rua, Amélia traz a surpresa que a filha Idalina mais gosta: bonecas. A moça, que passa as tardes em sessões de terapia em um centro de atendimento psico-social, tem bonecas loiras, morenas e ruivas.

Católica fervorosa, devota de Nossa Senhora Aparecida, Amélia confessa os motivos das preces. ''Rezo para a saúde de toda a família''. Sonhos, tem vários, mas um especial. ''Queria um carrinho mais novo para trabalhar, que não desse tantas despesas''. Além das orações para a santa, Amélia tenta empurrar a sorte encaminhando cartas para programas de televisão. ''Já mandei cinco para o Gugu e o Ratinho, mas até agora nada''.

A nora de Amélia, Lourdes Farias, que mora com o marido e os filhos no Jardim Maracanã (zona oeste), valoriza as qualidades da sogra. ''É para a casa dela que a gente corre quando as coisas apertam''. O sobrinho de Amélia, Reinaldo Pettinati de Souza Leite, 24 anos, catador de papel, como a tia, diz que queria muito tirá-la do trabalho pesado, mas a realidade deles envolve toneladas de papel. Otimista como a tia, com a linguagem típica dos jovens, Reinaldo define Amélia: ''Minha tia é o cara!''. (M.B.)

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