O casal de comerciantes Maria Vanusa e Valdecir de Oliveira, pais de Isabelly, são a cara da nova classe média que ascendeu financeiramente no Brasil nos últimos anos. Não à toa, no dia 11 de dezembro de 2011, eles estamparam a capa da FOLHA na manchete que anunciava a elevação do Produto Interno Bruto (PIB) graças ao poder de consumo da classe C.
Na época, eles comemoravam os bons resultados da pequena loja de materiais de construção instalada na zona norte da cidade e que atendia o crescente mercado da construção civil na região, impulsionado pelo surgimento de novos bairros, como o Vista Bela.
Depois de uma trajetória difícil que incluiu até mesmo a falta de itens básicos, como alimentos e produtos de higiene pessoal, eles experimentavam pela primeira vez o conforto trazido pelo acesso ao consumo, com dois carros na garagem, o computador novo da loja e o término da planta da casa própria que seria construída em um terreno comprado na região.
Lanchonetes, restaurantes e shoppings também passaram a integrar a rotina da família, que naquele Natal de 2011 não poupou esforços para satisfazer os desejos de Isabelly com roupas, sapatos e brinquedos novos.
Quatro anos depois, os comerciantes revelam que estão tendo que apertar o cinto para sobreviver à crise. Nos meses de junho e julho eles viram as vendas da loja reduzirem até 50%, o que os motivou a investir em promoções para atrair os clientes. "Nestes anos conseguimos fazer um bom estoque, por isso fizemos algumas promoções para atrair a clientela", revela Vanusa, que chegou a pensar que teria de fechar a loja, tamanho o marasmo. "Foram dois meses difíceis, mas agora melhorou", relata.
Os efeitos da crise mudaram os hábitos de Vanusa, Valdecir e Isabelly. Por necessidade de poupar dinheiro, por exemplo, Isabelly não teve festa de aniversário no ano passado. "Este ano vamos fazer uma festinha, porque ela merece. Depois que começou a crise, temos conversado muito com ela sobre a necessidade de economizar", ensina.
As idas constantes aos shoppings foram limitadas a uma vez por semana. Além disso, um dos carros da família foi vendido para garantir o investimento na nova loja de confecções que eles abriram. O sonho da casa própria permanece, inclusive com a mesma planta. "Vamos começar a construir em breve", garante.

Estratégia

No final do ano passado, o casal antecipou que 2015 seria um ano de crise e decidiu diversificar as atividades comerciais para não depender apenas de um setor. Por isso, abriram uma loja de roupas, acessórios e cosméticos ao lado do depósito. "O movimento ainda é pequeno, mas estamos investindo para melhorar", conta Vanusa, que vê as crises como momentos para aproveitar novas oportunidades. "Não dá para ficar parado esperando passar", ensina.
As consequências da economia sobre a nova classe média são observadas também no movimento da loja de materiais de construção. "Os clientes continuam com vontade de consumir, mas estão cuidadosos. Não tem mais aquela situação de chegar e comprar, as pessoas pedem orçamento e comparam preços", diz.
O parcelamento das compras também está mais frequente do que em anos anteriores. "Sempre sugerimos cartão de crédito porque os juros do boleto estão altos demais, tenho até pena de fazer", revela. Convicta de que em tempos de crise o mais importante é manter os clientes fidelizados, ela inclusive divide com os fregueses o alto custo dos juros. "A gente faz tudo para não perder o cliente, estamos usando a criatividade para vencer a crise." (C.A.)

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