Márcio tem 16 anos, mora na Chácara Padre Eduardo Michelis há quatro. Diferente dos outros meninos – que foram abordados enquanto estavam na rua – Márcio procurou Fernando de Góis, responsável pelo projeto, e pediu para participar dele. Conta que estava cansado de viver nas ruas e queria poder planejar um futuro. Em entrevista à Folha, o garoto revela como foi sua trajetória até chegar na Chácara dos Meninos de Quatro Pinheiros.
Folha - Por que você saiu de casa?
Márcio - Eu era muito rebelde. Era um menino inteligente e educado e morava com meus avós. Mas de vez em quando o meu avô me deixava injuriado e eu respondia, então ele me batia. Ele me colocava no chão e mandava ver. Uma vez ele pisou na minha garganta, eu consegui correr e ele foi atrás com um pedaço de pau. Eu joguei uma pedra perto dele e ele ficou muito bravo. Então eu tive que fugir.
Folha - E como era nas ruas?
Márcio - Eu passava frio e fome. Na verdade, eu só passava fome quando eu estava sem amigos. Mas quando eu estava com amigos sempre eu fazia alguma coisa. Pedia, roubava. Mas não era comida boa. Era resto. Mas fazer o que... tinha que comer, né?
Folha - Quantos anos você tinha?
Márcio -Eu tinha 12 anos. Saí de casa e fiquei na frente de um som (discoteca). Veio um cara e perguntou o que eu estava fazendo. Eu disse que queria entrar, mas estava sem dinheiro. Ele disse para eu cuidar dos carros. Comecei a cuidar dos carros e fiquei cheio de dinheiro. Ele pediu a grana porque eu estava no ponto dele e foi comprar maconha. Ele me disse ‘‘fuma a풒. Então eu comecei a fumar todos os dias. Só que eu não gostava muito porque ‘‘pirado’’ é muito difícil correr da polícia.
Folha - A polícia já te pegou?
Márcio - Já. Mas eu estava só com um ‘‘breu’’ (cigarro de maconha) e eles me soltaram. Eu tinha medo de eles me pegarem e me levarem para o pau de arara. Você sabe o que é pau de arara, né? Você fica pelado e os caras mandam ver. Conheço gente que foi pego.
Folha - E você roubava?
Márcio - Ah, marcava na minha e eu não esquentava a cabeça com nada. Mas eu não queria machucar ninguém. Eu não roubava gente velha. Roubava playboy. Pegava o dinheiro e ia jogar sinuca e tomar cerveja. Isso era esporte para nós.
Folha - E por que você decidiu sair das ruas? Você ligou para chácara e pediu para vir para cá, não foi?
Márcio - Porque eu estava me viciando. Eu estava crescendo e sabia que ia me empenhar. Eu ia acabar morrendo.
Folha - E como é a relação com seus avós hoje?
Márcio - Agora eles estão super bem comigo. Mas eu nunca vou esquecer o que meu avô fez. Por mais que ele seja o cara mais legal do mundo. Porque eu acho que quem bate esquece, mas quem apanha nunca esquece. Mas eu não vou esquentar. Vou deixar passar porque quem faz o mal recebe o mal. Agora eu estou me recuperando do que eles fizeram para mim.
Folha - O que você planeja para o seu futuro?
Márcio - Eu queria estudar mecânica, mas tenho que esperar fazer dezoito anos porque menor não pode. Eu quero trabalhar. Não quero voltar para as ruas nem para as drogas. Porque se eu voltar eu sei que eu não paro mais. Quero ser alguém.
Fernando de Góis - Ser alguém? Quer dizer que você não é alguém agora?
Márcio - O senhor sabe do que eu estou falando, né? Ser alguém significa que eu vou passar e as pessoas vão falar: ‘‘Olha, ali vai o mecânico’’.

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