Há 32 anos, o Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) começou a acompanhar crianças paranaenses que chegavam ao hospital acometidas por um tipo raro de câncer: o câncer no córtex da glândula supra-renal. Naquela época, o que chamou a atenção do médico Romolo Sandrini, fundador do Setor de Endocrinologia Pediátrica do HC, foi a grande incidência da doença no Paraná e sul de São Paulo. Naquele tempo, ele ainda não sabia, mas esse tipo raro de tumor, que ataca a superfície da glândula, apresenta mais casos nesses dois estados do que em qualquer outro lugar do mundo.
Para ter uma idéia, enquanto nos Estados Unidos a incidência é de uma criança doente para cada 3 milhões, no Paraná este número é dez a 20 vezes superior. Apesar de ser responsável por apenas 0,2% das neoplasias que atacam a idade infantil, o grande número de casos localizados aumentou o interesse pelo assunto. ''No início achávamos que a causa era ambiental, ligada a algum elemento que a população manuseava, como agrotóxicos ou outros produtos'', conta Sandrini, atual vice-reitor da UFPR.
Há quatro anos, pesquisas genéticas mostraram que a doença está relacionada a componentes genéticos. Prova disso é que, em 32 anos o HC atendeu 112 crianças pertencentes a 94 famílias. Desde então acredita-se que suas causas estejam relacionadas a fatores ambientais ainda não identificados e genéticos. Segundo o médico Bonald Figueiredo, coordenador de pesquisas genéticas da UFPR, a pessoa mais idosa identificada com a mutação de proteína tem hoje 72 anos, o que leva a crer que as primeiras pessoas com o problema tenham nascido no início do século passado e expostas a uma substância desconhecida.
''Já sabe-se que um fator ambiental fez essa mudança inicialmente, causando um distúrbio genético que está passando de geração em geração. E o problema é que os casos estão aumentando'', adverte Sandrini. Há dez anos, o HC não tinha nenhum registro de família com mais de um caso da doença.
Hoje, de acordo com Figueiredo, o Setor de Endocrinologia já atende sete famílias com mais de um caso, sendo que uma teve cinco crianças com a doença. ''A tendência é crescer porque há cada vez maior número de pessoas transmitindo a mutação, gerando mais mutantes e, consequentemente, mais casos'', diz Sandrini.

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