Cacique condena ação de comerciantes
Para o cacique da reserva São Jerônimo, Nelson Vargas, 44 anos, a aposentadoria é mesmo uma ''grande ajuda'' não somente para o idoso como também para os familiares. Entretanto, ele vê ''malefícios no benefício''. Segundo o cacique, muitos membros da família acabam se apropriando do dinheiro. ''No dia de receber o salário, enquanto a mãe está no banco os filhos e netos ficam esperando na porta''. Segundo Vargas, é comum os familiares pedirem ''coisas'' para os aposentados.
A Funai supre boa parte das necessidades básicas como atendimento médico, odontológico, jurídico, remédios e suprimentos de alimentação para os que não conseguem se manter com os recursos provenientes da reserva. O cacique explica que os aposentados, como o restante da comunidade, têm hábitos simples e compram basicamente alimentos para as refeições.
De acordo com o cacique, não são apenas os familiares que se beneficiam da aposentadoria. Os donos de vendas onde os índios fazem as compras, segundo ele, se apropriam dos cartões magnéticos dos aposentados. O fato foi detectado pela assistente social Irma Basso. Ela verificou que a grande maioria dos aposentados deixa os cartões com o fornecedor que, sabendo qual o valor, vai fornecendo bens aos índios até o máximo que eles têm a receber.
''A senha não fica em poder dos comerciantes'', afirma o cacique. O cartão seria uma espécie de garantia de exclusividade para o comerciante. Na opinião do cacique, a confiança que o índio deposita no dono do armazém não é recíproca. ''O comerciante só vende se tiver o cartão como garantia''.
O dono de um supermercado da cidade, Carlos Sutil, disse que não tem conhecimento de que os índios deixam os cartões em poder de donos de armazém. Ele acha que a informação não procede, já que ''os índios são conhecidos''. São Jerônimo da Serra não tem associação comercial.
O chefe do posto indígena, o funcionário da Funai Gilmar Ferreira da Silva, confirma que o procedimento de deixar os cartões é comum entre os aposentados. Os índios, de modo geral, não questionam a honestidade do comerciante. Muitos deles, sem saber ler em português, não verificam o preço real das mercadorias. O funcionário da Funai admite que pode haver abusos.
O administrador do escritório da Funai em Londrina, José Gonçalves, reconheceu que os comerciantes exploram a boa-fé dos indígenas. Controlar o problema, segundo ele, é complicado, porque envolve a autonomia dos aposentados. ''Eles têm liberdade para escollher onde e a forma de comprar'', argumenta.
Segundo Gonçalves, a melhor solução é a orientá-los, o que já estaria sendo feito pelos chefes de postos. Interferir, em sua opinião, significa extrapolar os direitos individuais. ''A confiança que depositam nos 'brancos' é uma demonstração de que a sociedade capitalista ainda não conseguiu retirar dos índios a ingenuidade que vem desde a colonização''.
A vida assalariada, para Gonçalves, é uma mal necessário, dado o grau de aproximação da maioria das reservas do Estado com a área urbana. No caso específico do Posto de São Jerônimo, a cidade está proxima e traz o apelo consumista. ''A televisão propaga necessidades que o dinheiro pode suprir'', observa. (M.B.)





