Pelo menos 1 milhão de crianças e adolescentes entre zero e 18 anos vivem em abrigos no Brasil. Só em São Paulo, são 200 mil crianças nesta situação e, em Curitiba, estima-se que cerca de 1,6 mil estão em instituições para crianças abandonadas, órfãs ou em situação de risco, ou seja, separadas da família em função de conflitos no convívio. Do lado oposto, cerca de 600 pessoas no Paraná – 250 em Curitiba – estão na fila para adotar uma criança, o que indica que o grande número de menores sem um lar estável não é garantia de que os interessados consigam adotar uma destas crianças.
Em Londrina, são cerca de 70 habilitados na fila e apenas cinco crianças, de 6 a 17 anos, aptas a serem adotadas. No ano passado, cerca de 10 adoções foram efetivadas. Em média, o tempo de espera é de um ano e meio. Segundo a promotora da Vara da Infância e da Juventude, Édina Maria de Paula, a demora ocorre porque a maioria das pessoas quer achar um ‘‘filho ideal’’, que seria uma criança do sexo feminino, recém-nascida, de pele branca e saudável.
‘‘A maioria quer resolver seus problemas internos, sem ter tanta consciência do que significa ter o pátrio poder, que na verdade significa ‘pátrio dever’, com disponibilidade emocional para ser pai e mãe. O conceito da adoção humanitária, em que o casal vai em busca de uma criança que está abandonada e quer oferecer a ela uma famíla, ainda é pouco praticado no nosso País, diferente do que acontece no Exterior’’, afirma.
Em Curitiba, a espera para a adotar uma criança é de até dois anos e grande parte dos menores adotados vêm de cidades do interior. É que, conhecendo as dificuldades, a maioria dos casais já ingressa com dois pedidos, um em Curitiba e outro em alguma cidade do interior. A própria 2ª Vara da Infância e da Juventude – responsável pelas adoções na Capital – costuma indicar aos casais que procurem comarcas de outras cidades.
Foi o que aconteceu com a aposentada M.S.G. e seu marido M.G, ambos com 50 anos e casados há 25. Na fila de espera desde novembro de 1999, o casal diz que já está ‘‘quase desistindo’’. A demora, neste caso, é quase inexplicável, porque os dois não querem um recém-nascido. A preferência é por uma criança entre um ano e meio e 6 anos, não importando sexo ou cor. Mesmo assim, depois de entregar toda a documentação exigida, o casal foi aconselhado a procurar uma das 82 comarcas relacionadas em uma lista, que inclui cidades do Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Para a psicóloga Lidia Weber, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que acaba de lançar o livro ‘‘Pais e filhos por adoção no Brasil’’, tema de sua tese de doutorado, a burocracia é apenas um item na demora dos processos de adoção. O maior problema, para ela, é o tempo que as crianças são obrigadas a passar nas instituições até que a Justiça defina se os pais biológicos têm direito ou não sobre o menor. Só depois que os pais concordarem ou o Juizado decidir retirar o pátrio poder é que estas crianças podem ser adotadas.
‘‘É preciso discutir o porquê que se deixa as crianças envelhecerem dentro das instituições’’, afirma a psicóloga. Lidia concorda que o Juizado deve buscar alternativas para reintegrar as crianças em suas famílias biológicas, de modo a preservar o direito de convívio com a família, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas acha que há muita demora neste processo.
O problema, para ela, é que o sistema apenas retira o menor da casa de seus pais, mas não faz nada para reverter a situação em seu lar de origem. ‘‘A criança vai ficando nos abrigos, e não se faz nada para apoiar a família nem a Justiça decide se libera ou não a adoção’’. (Colaborou Ana Paula Nascimento)

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