Brasil usa irradiação para conservar alimentos
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de agosto de 2001
Beatriz Lecumberri<BR>France Presse 
Uma tecnologia que aumenta a duração e a qualidade dos alimentos aplicando-lhes irradiações está sendo usada pela primeira vez no Brasil e na América Latina com o objetivo de aumentar a competitividade internacional dos produtos locais e reduzir a miséria no País.
Cebolas que duram quatro meses, frutas que não apodrecem e amadurecem como se estivessem na árvore, carne que se mantém intacta por 90 dias, sem necessidade de congelamento ou milho que pode ser guardado por anos no armário são alguns dos resultados práticos da associação da firma brasileira Tech Ion e a americana Surebeam Corporation.
As duas empresas começaram este ano a aplicar raios X, Beta e Gama nos alimentos numa fábrica de Manaus, abrirão outra instalação em breve no Rio de Janeiro e outras dez nos próximos 12 meses, revelou o presidente da Tech Ion, José Francisco de Medeiros
Cada uma dessas unidades tem capacidade para radiar 100 mil toneladas de alimentos por ano e o custo será somente de alguns centavos de real por cada quilo de produto que, quando chegar aos supermercados trará uma inscrição explicando que recebeu irradiações.
''Estos raios matam insetos e bactérias e por isso se dá uma vida extra aos produtos, além de aumentar sua qualidade. A partir de agora, ficam sem valor as barreiras fitossanitárias ao Brasil por vários países'', explicou.
Segundo Medeiros, os agricultores brasileiros perdem muito dinheiro porque precisam vender rapidamente toda sua produção, evitando que se estrague. Este ano o Brasil vai produzir 97 milhões de toneladas de grãos, mas deve desperdiçar 23% deles e cerca de 40% de suas frutas e verduras.
Com esta tecnologia aumentará a oferta de produtos, os preços serão mais competitivos já que será possível enviar laranjas de navio e não por avião para os Estados Unidos e serão aproveitados melhor os recursos ''de um País onde quase um terço dos 169 milhões de habitantes são pobres''. ''O Brasil joga no lixo US$ 2 bilhões em alimentos por ano'', lamenta Medeiros.
As tropas de fronteira do Exército brasileiro na Amazônia já comem pescado e frutas irradiadas, explicou Medeiros. A fábrica situada em Manaus processa 50 toneladas de alimentos por dia e evita que os produtos que chegam ou saem da região se estraguem por causa das grandes distâncias e as más comunicações na área.
Cada instalação para irradiação de alimentos custa entre US$ 4 e 10 milhões, todos eles procedentes de capital privado. Medeiros explicou que o projeto recebeu todo o apoio do governo, que até modificou uma lei referente ao uso de radiações para que essas atividades pudessem ser feitas.
Apesar de que esta tecnologia seja aplicada há décadas para esterilizar material hospitalar, a ONU formou uma comissão para investigar seus efeitos nos alimentos.
Peritos da Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) concluiram em 1983 que as técnicas de irradiação não são nocivas para a sa©úde.
Os cientistas recomendaram que os países estimulem esta prática para evitar pragas e vírus e fazer chegar alimentos em bom estado a lugares que sofrem catástrofes naturais.
Do ponto de vista econômico, Medeiros explicou que quando Tech Ion e Surebeam anunciaram no ano 2000 sua associação, as ações da empresa americana valorizam mais de 50% e o patrimônio da empresa cresceu em US$ 1 bilhão, atraindo capital itnernacional.
No Chile e na Argentina também existem pesquisas para este tipo de tecnologia mas ainda não é aplicada a alimentos. Nos Estados Unidos, um dos poucos países ricos do mundo que utilizam este método, a Surebeam já colocou seu produtos em mais de 2,5 mil supermercados mas a finalidade é exclusivamente sanitária, ou seja, garantir uma pureza e qualidade extra nos alimentos.


