É como se tivessem trocado a temperatura da água da cuia e transformado o tererê em chimarrão. No interior do departamento (equivalente a estado) de Alto Paraná, à margem da Ruta VI, no leste do Paraguai, a água passa quente na bomba e o sotaque marcadamente gaúcho é ouvido no comércio e nas ruas. Em meio às frases pontuadas por ''tchês'', os embalos de sábado à noite no Centro de Tradições Gaúchas (CTGs) e as camisas da dupla Grenal no município de Santa Rita, há uma nova esperança com nome e sobrenome: Federico Franco. O novo presidente do país, alçado ao cargo após o impeachment do ex-presidente Fernando Lugo no último dia 22, é encarado pela comunidade brasileira como um protetor e um aliado.
''O país retomou sua tranquilidade e, se os governos não atrapalharem, vamos seguir crescendo e fortalecendo a economia do Paraguai'', diz o empresário Vilson Beilner, o Teko, dono da Unijet, revenda de máquinas e equipamentos agrícolas que emprega 37 pessoas em Santa Rita e em outras duas filiais paraguaias. ''Estamos muito satisfeitos com a decisão do parlamento e com o discurso de Franco, que já na posse mencionou a importância dos imigrantes para a economia. Antes, éramos ignorados ou perseguidos'', afirma.
É consenso entre os brasileiros de Santa Rita que o governo Lugo desestabilizava o ''setor produtivo''. Para eles, Lugo era uma ameaça com sua promessa de reforma agrária e com sua indiferença às invasões dos camponeses sem terra. ''Não dependemos do governo. A gente só quer que ele não nos atrapalhe'', resume Noeli Maria Pasuch, gaúcha de Três Passos, dona da churrascaria Mercosur, radicada há 35 anos na cidade.
A gaúcha Noeli e o paranaense Teko são típicos casos de sucesso entre os 350 mil brasileiros que vivem em território paraguaio. Chegaram em uma terra praticamente inexplorada e convenceram parentes a investir e ganhar dinheiro. Sempre prezaram pela autonomia que receberam do governo paraguaio para desenvolver a região. Após a posse do esquerdista Lugo, contam eles, tiveram que lidar com uma situação nova, com constantes ameaças legais - fiscalização dos tamanhos dos lotes foi a mais comum - e com os movimentos constantes de camponeses sem terra que perambulavam pela região.
Um outro empresário que preferiu não se identificar diz que a situação trouxe prejuízos e que muitos investimentos foram engavetados desde 2008, quando o governo anterior foi empossado. ''Muita gente gastou com advogados para provar que as terras estavam com a documentação em ordem. Outros produtores tiveram que lutar contra invasões e pressionar os políticos em Assunção para que a polícia cumprisse mandatos de despejo. Havia uma insegurança muito grande, ruim para os negócios'', diz.
Técnico agrícola de formação, Teko já viveu mais no país vizinho do que em Marmeleiro, município do Sudoeste paranaense onde nasceu e de onde migrou aos 19 anos. Além da empresa, ele possui propriedades em Alto Paraná e diz nem pensar em deixar a terra grande produtora de grãos (trigo, soja, milho, sorgo e canola), que apesar da seca de 2011 e da geada deste ano parece em plena efervescência econômica. ''Confiamos no novo presidente que já disse que reintegração de posse é uma decisão da justiça e como tal deve ser cumprida.''
Cliente da Unijet, Selivaldo Neuchaus, de 62 anos, gaúcho de Treze de Maio radicado há 25 anos em uma propriedade rural do departamento de Itapúa, confirma que os brasiguaios ganharam respaldo político com o novo governo, mas é mais cauteloso. ''É um governo novo, que deve durar pouco mais de um ano. Temos que aguardar como as coisas vão evoluir neste período.''
Dono da Cadec, empresa de desenvolve e vende sementes em Santa Rita, Julio Cesar Gracietti, catarinense de Lages, 16 anos de Paraguai, diz que voltou a fazer o que sempre fez. ''De novo, posso dizer que o Paraguai é um país seguro. Voltei a aconselhar os amigos do Brasil a investir aqui.''
Como argumento, Gracietti, que também planta soja e milho e que gera renda para cerca de 300 pessoas, aponta o modelo tributário do Paraguai como ''muito melhor que o do Brasil.''

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