BELEZA IDEALIZADA - Febre entre adolescentes
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de outubro de 2013
Carolina Avansini e Silvana Leão 
Descontentes com o tamanho dos seios ou com a barriguinha saliente, adolescentes brasileiras têm recorrido cada vez mais a uma solução radical para eliminar essas características. Em quatro anos, aumentou em 141% o número de cirurgias plásticas realizadas em pessoas entre 14 e 18 anos no País. Foram 37.740 procedimentos realizados em 2008 contra 91.100 em 2012, de acordo com levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).
Embora as cirurgias realizadas em adultos sejam a maioria (911 mil procedimentos), a presença dos jovens no total de intervenções aumentou, passando de 6% em 2011 para 10% em 2012. O levantamento aponta ainda que o crescimento entre adolescentes superou em 3,5 vezes o índice em adultos, que registrou aumento de 38,6%.
O fenômeno gera preocupação entre profissionais da área de saúde, que alertam para os riscos da padronização dos modelos de beleza e da idealização do corpo perfeito. "Os números são assustadores e refletem a ditadura da moda exposta pela mídia especializada", critica João de Moraes Prado Neto, membro titular e presidente eleito da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Segundo ele, nos consultórios, o procedimento mais procurado pelos jovens é o implante de silicone, seguido por lipoaspiração e correções no nariz.
Apesar de concordar com a indicação de cirurgia em parte dos casos, Prado Neto ressalta que a indicação tem que obedecer critérios severos. O primeiro deles é observar se a parte do corpo a ser submetida à cirurgia já atingiu pleno desenvolvimento. "A orelha, por exemplo, não cresce mais depois dos seis anos, por isso é possível realizar correção em crianças. Já com relação às mamas, é preciso observar se a menina já atingiu a altura da mãe e se já menstruou há pelo menos dois anos", pondera, enfatizando que há vários outros exames que ajudam a investigar o desenvolvimento da paciente.
O pleno desenvolvimento e a vontade da adolescente, entretanto, não são suficientes para justificar a cirurgia. Segundo o especialista, cabe ao profissional investigar também a maturidade psicológica da paciente antes de realizar o procedimento, para reduzir o risco de arrependimento. Outra necessidade é alertar as famílias, de forma honesta, de que se trata de uma cirurgia como outra qualquer, com todos os riscos cirúrgicos inerentes.
Prado Neto relata um fato ocorrido no próprio consultório, de uma menina de 14 anos que queria se submeter à redução das mamas, para exemplificar como a indicação deve ser criteriosa. "Apesar do exame físico ter constatado a necessidade e de ela ter manifestado fortemente a vontade, só realizei a cirurgia após solicitar laudos técnicos ao ortopedista e à psicóloga. É muito importante agir com bom-senso e ética", observa.
A lipoaspiração, apesar de ser mais simples de ser realizada do ponto de vista técnico, exige os mesmos cuidados. "Desenvolvimento físico e psicológico precisam ser levados em conta", afirma. Outra preocupação da entidade diz respeito à crescente oferta de profissionais sem formação especializada que realizam o procedimento, o que pode causar graves consequências nas pacientes. "Recomendamos procurar médicos com títulos de especialidade e chancelados pelas sociedades médicas", esclarece. O site da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (www.cirurgiaplastica.org.br) disponibiliza uma lista com todos os profissionais brasileiros habilitados.
De bem com o espelho
Há três meses, a maquiadora Francyelle Capel ficou entre as três finalistas do concurso "As Mais Belas do Face" (categoria plus size), concorrendo com 41 garotas de todo o País. O resultado só confirmou o que a londrinense já sabia: que é possível sentir-se bonita e atraente mesmo estando fora dos padrões de beleza.
Aos 22 anos, ela não se lembra de ter sido magra em nenhuma fase de sua vida, mas aprendeu a se valorizar. "Na adolescência foi difícil, fiz muitas dietas, algumas delas bem malucas, que davam resultado na hora mas depois de um tempo voltava todo o peso e a saúde ainda ficava comprometida", admite Francyelle.
Ela afirma, porém, que nunca cogitou fazer cirurgia plástica. "No ano passado cheguei a pensar em cirurgia de redução de estômago, mas cheguei à conclusão que não valia a pena, porque seria apenas uma questão de aparência. Hoje só faria se fosse por uma questão de saúde."
O bom funcionamento do organismo, por sinal, é que mais preocupa a jovem. Ela conta que faz exames médicos a cada seis meses e procura manter uma alimentação saudável. "Não tenho tempo de fazer atividade física, porque trabalho também à noite, como caixa de um bar. Mas nunca tive problemas de saúde."
A maquiadora também garante que a beleza fora do convencional nunca atrapalhou a vida amorosa. Seu atual namorado é do Ceará, e ela o conheceu durante o concurso na internet. "Ele fazia parte da comissão julgadora." Francyelle diz estar feliz com seu corpo, embora perceba o preconceito, em alguns locais. "A sociedade impõe um padrão, e as pessoas acham que se a gente não se enquadrar nele, não vamos conseguir nada. Não me enquadro nesta ditadura, não vejo por que agradar só aos outros. Estou feliz do jeito que estou."


