Baixa remuneração do médico, despreparo dos profissionais para dar assistência plena obstétrica, cultura das ações judiciais, violência nas grandes cidades, dificuldades de deslocamento. Todos estes fatores, segundo o ginecologista e obstetra Roberto Benzecry, professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e associado da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), colaboram para a grande prevalência dos partos cesáreos no Brasil. "Com o valor pago hoje ao médico por um parto, ele não tem como ficar até 12 horas assistindo uma paciente em trabalho de parto", defende.
Baseado em sua experiência na área acadêmica, Benzecry afirma que houve uma queda na qualidade do ensino no País, e que os médicos, ao se formarem, não estão suficientemente preparados para assistir partos mais complicados, por isso optam pela cesárea. "Há também os casos em que o médico não se sente seguro, por medo de ser acionado judicialmente pela família." A violência urbana é outro fator destacado pelo médico. Segundo ele, são muito comuns os casos de assaltos a médicos que têm que se dirigir a hospitais de madrugada, daí a preferência por agendar os horários dos partos.
"São vários fatores que colaboram para o aumento dos partos cesáreos e exigem medidas que melhorem a assistência como um todo, mas infelizmente parece que os governantes não estão preocupados com a saúde e a educação da população", critica o médico.

TRANQUILIDADE
Não só para os médicos é mais tranquilo ter os partos de suas pacientes agendados com antecedência. Para as futuras mães, este também é um fator de peso. A empresária Inauê Gomes Adolfo Bianchini, 32 anos, conta que durante a gestação de seu primeiro filho, hoje com 7 anos, ficou indecisa até o momento em que começaram as contrações, mas no fundo sempre teve mais confiança no procedimento cirúrgico. "A gente sempre tem medo de que aconteça alguma complicação quando se trata de parto normal." Por isso, assim que o médico lhe informou que estava com pouca dilatação e, que provavelmente levaria horas para seu bebê nascer, ela optou pela cesariana.
"Ele chegou pra mim e disse que o trabalho de parto duraria de oito a dez horas. Mas que eu optasse pela cesárea, em 20 minutos estaria com meu filho nos braços. Não pensei duas vezes." E de fato, segundo a empresária, o parto foi rápido e tranquilo.
Dois anos depois, quando engravidou do segundo filho, Inauê nem chegou a cogitar outro tipo de procedimento. "Foi tudo agendado. Na véspera fui à cabeleireira, fiz unha, maquiagem, tudo para estar bonita na hora do parto. Mas dessa vez a recuperação da anestesia foi bem mais difícil e demorada. Senti muita dor de cabeça, um frio que não passava e muita coceira pelo corpo. Achei que ia morrer", lembra. Mesmo assim, a empresária diz que faria cesariana de novo, se fosse preciso. "Acho bonito o parto normal, mas acho que não é para mim."

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