Aos 41 anos, Emilio Amaral Rodrigues não tem uma resposta pragmática para uma questão filosófica e que se impõe desde que o homem se civilizou: afinal, o que é a felicidade? "Arriscaria dizer que felicidade é você ter coragem de fazer da sua vida o que realmente você que fazer dela". A resposta é só mais uma entre milhões de outras diferentes, mas tem o peso de quem viveu uma aventura de oito meses pela América espanhola em uma Kombi 1972. Zagaia, como Emilio é conhecido, rodou 13,5 mil quilômetros em busca da resposta que nos faria invencíveis. Virou quase um doutor no assunto, mas a definição se mantém inconclusa como sempre mesmo depois de tanto chão, como se a maior das nossas dúvidas fosse algo confortavelmente intocável.
O instrutor de mergulho que ganhou notoriedade após participar da terceira edição do reality show Big Brother Brasil, no começo da década passada, lança esta semana, em sessão fechada na próxima quarta-feira no Londrina Norte Shopping, seu primeiro documentário em terra firme – as outras obras em vídeo tratam de filmes subaquáticos.
"Zoe – Uma Viagem pela Felicidade" é um filme instintivo, registro de uma viagem feita entre janeiro e agosto de 2012, documentada no blog O Mundo é uma Kombi, da revista Trip. Uma jornada que atravessou 15 países, de Tulum (México) a Chuy (Uruguai), e ouviu dezenas de pessoas em dezenas de cidades. Foi a realização de um desejo que surgiu anos antes, quando Emilio trabalhava como instrutor de mergulho no México. Nessa época, ele ouvia com frequência observações sobre sua condição e seu estilo de vida. "Era muito comum as pessoas acharem que eu era o cara mais feliz do mundo por sempre estar em lugares lindos e ganhar dinheiro com isso", lembra. "Mas, na verdade, eu não podia responder o que realmente eu estava sentindo. Queria dizer que estava com muita saudade da minha cidade, dos meus amigos, da minha família. No fundo, não estava feliz". O filme surgia ali, de uma angústia e de uma reflexão.
A ideia de fazer um planejamento rígido caiu por terra nas primeiras semanas no México, por problemas de vistos para que a viagem avançasse da América do Norte para a América Central e das condições da Caipirinha, a Kombi verde e amarela que como a Poderosa, a motocicleta de Che Guerava em Diários da Motocicleta, tinha muito mais charme que resistência. "Percebi que o planejamento era inútil e decidi traçar uma única meta: viajar para o Sul", lembra, com bom humor.
O filme tem 48 trechos de entrevistas, de 35 personagens diferentes. Zagaia conta que até mesmo a escolha dos personagens foi aleatória. A maioria das opiniões é, a rigor, espontânea, de pessoas que se aproximavam da Kombi. Mecânicos (foram muitos), viajantes nas mesmas condições e os nativos mais curiosos. De algum modo, o veículo se torna um personagem importante do enredo. "Não sei se com outro modelo aconteceria tudo o que aconteceu", analisa Zagaia. "A Kombi tem um carisma especial, é o veículo mais universal do mundo, tem alguma coisa que fascina, que faz as pessoas se aproximarem."
Há um ponto comum, segundo o viajante londrinense, entre quase todas as respostas. "A maioria fala que a felicidade é estar com a família. O que se pode ser adaptado também para conviver com quem a gente gosta", afirma Zagaia. "Outra conclusão é que os mais velhos se preocupam com o 'onde'. Acreditam que o lugar determina a felicidade", explica. "Já as pessoas mais maduras, relacionam a felicidade às pessoas, o 'quem' é mais importante que o 'onde'", completa.
Uma garota com Síndrome de Down em Medellin responde que a felicidade é "a própria vida e Deus". Um mecânico de Manágua, capital da Nicarágua, que ajudou a achar uma peça de reposição para a Caipirinha, respondeu a pergunta com o gesto. "Depois de procurar a peça em várias prateleiras lotadas de material velho, ele encontra. Pergunto: quanto é? Ele responde: não é nada. E explica: isso não faz a menor diferença na minha vida e para você faz toda a diferença, significa seguir adiante", relata o aventureiro. "Por fim, ele respondeu que felicidade é ajudar quem precisa."
Um jogador de rugby argentino de Rio Cuarto que trabalha em um frigorífico de frango respondeu que a felicidade está nas coisas mais simples, em um "asado" (churrasco) com os amigos. "Um rapaz no Chile fez uma ponderação interessante: eles dizem que as pessoas confundem felicidade com facilidade", afirma Zagaia, lembrando o velho debate se dinheiro é igual a felicidade. "Não faço apologia da pobreza, mas encontrei as pessoas mais felizes nos lugares mais pobres", diz Zagaia.
Mas a polêmica sobrevive em dois momentos: um mariachi de El Salvador afirmou que felicidade é "comprar tudo o que a gente precisa". Uma chef francesa contesta. "A felicidade está bem longe dos bens materiais". Para ela, a humanidade tem que se voltar para as coisas mais simples.
Zagaia avisa que o filme será exibido também no próximo dia 11, na Chácara Vale das Palmeiras, em Londrina, em uma festa com show da banda Maracutaia do Samba. A entrada custará R$ 15.

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