AVANÇOS - Autonomia nas relações é uma conquista
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de abril de 2013
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
A mudança no padrão de relação entre homens e mulheres é considerada pela socióloga Silvana Mariano uma das principais conquistas feministas do século 20. Se antes amargar um casamento infeliz era opção melhor que a discriminação provocada pelo divórcio às esposas insatisfeitas com a vida conjugal, hoje elas têm autonomia para escolher os parceiros e decidir até quando vão ficar com eles.
O reflexo dessa realidade está nos novos arranjos familiares cada vez mais comuns na sociedade. Famílias formadas por filhos de casamentos anteriores, guarda compartilhada, crianças morando apenas com os pais são alguns exemplos dessas configurações.
A socióloga Clarice Junges, de Londrina, é um exemplo dessa realidade. Mãe de Ivan, de 15 anos, e Nisba, de 12, ela se separou quando a caçula tinha um ano. Passada mais de uma década do rompimento, analisa que tomou essa decisão porque se sentia diminuída no casamento. Abri mão de muitas coisas importantes para me tornar esposa e mãe. Quando o casamento terminou, foi um passaporte para eu retomar o que tinha ficado parado, pondera ela, que conseguiu fazer especialização e mestrado após o fim da relação.
Desde o início, o casal estabeleceu a guarda compartilhada dos filhos. Desta forma, os meninos ficavam alguns dias na casa do pai e outros na casa da mãe. Com a separação, consegui efetivamente dividir as responsabilidades relativas às crianças com o pai delas, diz. Hoje, ela avalia que a relação poderia ter dado certo se não tivesse aberto mão de algumas coisas que considerava essenciais. Com a cabeça que tenho atualmente, seria mais impositiva com relação ao que esperava do meu parceiro, lutaria por liberdade ao invés de me anular.
Apesar de manter uma relação harmoniosa com o ex-marido, Clarice revela que os dois tiveram um embate sério quando ele iniciou um novo relacionamento e se mudou para o Rio de Janeiro. Naquele momento, perdi de novo a liberdade que tinha conquistado, recorda, referindo-se ao fato de que não teria mais ninguém para dividir os cuidados com os filhos. Com a ajuda de amigos, porém, ela conseguiu estabelecer uma nova rotina.
Quando completou 12 anos, o filho mais velho foi morar com o pai, a esposa e os dois irmãos nascidos deste novo relacionamento. Fico muito tranquila porque ela (a esposa do ex-marido) adotou o Ivan como filho, conta. O irmão mais novo dos filhos, com apenas 7 anos, já veio passar férias na casa de Clarice, comprovando a relação de confiança entre as mães.
Apesar de sentir saudades de Ivan, ela reconhece que o filho está feliz e exorciza qualquer sombra de culpa. Estou convicta de que sempre dei o melhor de mim, diz a socióloga, que prepara-se para o dia em que a filha mais nova também vai querer viver a experiência de morar no Rio de Janeiro com a outra família.
Sobre um novo casamento, Clarice não descarta a possibilidade. Quero alguém para curtir o envelhecimento, planeja. Está consciente, entretanto, que o relacionamento não pode implicar na perda de autonomia. Nunca mais vou abrir mão da minha liberdade, sentencia.


