Valter Aparecido dos Santos, 40 anos, e seu sobrinho Felipe Isaac Piaí, 13, são vítimas da violência de um policial militar. Os dois foram atropelados por um carro em fuga, que levava o soldado do 5º BPM de Londrina, Reginaldo Fortunato, no dia 7 de fevereiro de 2000. Fortunato havia acabado de matar a tiros o cobrador Arnaldo Alves dos Santos e ferido à bala o irmão de Arnaldo, Adailson Leontino dos Santos, e também o policial militar Edvaldo Aparecido Alves, durante a Festa do Milho, no distrito de Paiquerê (30 quilômetros ao sul de Londrina).
Arnaldo dos Santos morreu na Santa Casa de Londrina, deixando mulher e dois filhos menores. Tio e sobrinho estavam em uma moto, na estrada que liga os distritos de Irerê e Paiquerê, quando foram atropelados. Os dois nunca mais serão os mesmos.
Valter não lembra do acidente, mas Felipe nunca vai esquecer aquele dia. Ele ficou consciente durante todo o tempo, até ser atendido pelos bombeiros do Siate. Viu o acidente e viu as pessoas que estavam no Gol que os atropelou descerem do carro e fugirem. A lembrança dói tanto quanto suas pernas machucadas.
Valter e Felipe passaram mais de um mês internados, em estado grave, no Hospital Universitário de Londrina. Vlater ficou 28 dias em coma no hospital, com traumatismo crânio-encefálico e fraturas múltiplas nas pernas e braços. Os médicos chegaram a desenganar a família. Segundo a esposa de Valter, Sueli, sua recuperação foi ''um milagre''.
Mesmo assim, Valter hoje não consegue ficar em pé por muito tempo, não dobra a perna esquerda - cheia de pinos -, perdeu alguns movimentos do braço direito e teve o raciocínio afetado. Seu corpo é cheio de cicatrizes profundas e sofre com dores constantes.
Foi obrigado a vender o caminhão com o qual trabalhava e hoje não consegue emprego. ''Apesar de agradecer a Deus por estar vivo, eu não presto para nada. Só fico encostado em um canto'', diz, chorando.
Felipe também teve fraturas múltiplas. Segundo a mãe do garoto, Roseli Piaí, ele foi ''moído'' da cintura para baixo, com fraturas no quadril, fêmures, joelho, além de cinco costelas e nariz. Já passou por três cirugias - a última há dois meses - e deve ser operado ainda outras vezes. Sua perna direita teve que receber enxertos de ossos, músculos e tendões, e vários pinos e ficou 3,2 centímetros mais curta que a outra.
As irmãs Roseli e Sueli não se conformam que o soldado ainda não tenha sido punido pela PM. ''O que dói é que ele é pago, por nós, para servir a comunidade. Ele matou e aleijou e nada aconteceu. Ele destruiu a nossa família, destruiu a família do homem que matou. E tudo continua normal para ele'', reclamou Roseli. (T.E.)

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