Atividade de risco amedronta marroeiros
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de julho de 2001
Alexandre Palmar De Foz do Iguaçu 
O marroeiro (quebrador de pedras) Manoel Francisco dos Reis viu seu filho José Maria Rocha dos Reis morrer após ser atingido por uma pedra de quase duas toneladas numa pedreira em Foz do Iguaçu. O pai chegou a ouvir o barulho do bloco caindo da parede mas não conseguiu avisar o rapaz que estava ao seu lado. Ela bateu no peito dele e jogou o corpo no barranco. Se tivesse caído em cima, não tinha sobrado nada para colocar no caixão.
O episódio aconteceu há um ano, mas até hoje Manoel narra o acidente com detalhes. A fatalidade virou um marco para o grupo de quase 30 marroeiros da pedreira do Porto Belo (região oeste), às margens do Rio Paraná. Desde então, os operários engrossaram as reivindicações por equipamentos de segurança para trabalhar no local, mas ainda não foram atendidos.
O grupo é autônomo e vende a matéria-prima para Selvino Kronppauer, que administra o terreno, de propriedade da prefeitura. O intermediário compra as pedras retiradas pelos operários e as revende, pelo dobro do preço, para uma empreiteira que presta serviços ao município (construção de calçamento poliédrico e meio-fio).
Para encher uma caçamba, de seis metros cúbicos, um marroeiro leva de dois a três dias e recebe pelo trabalho R$ 35,00. O carregamento, entretanto, é revendido por R$ 50,00 para as empreiteiras. O valor da pedra para meio-fio é maior, sendo comercializada por R$ 70,00 e revendida por R$ 100,00.
Essa rede comercial impede o grupo de descobrir quem é o verdadeiro responsável pelo local, afinal o terreno só pode ser explorado mediante uma concessão pública (Selvino não tem a autorização). Os operários ficam na dúvida para quem devem reclamar seus direitos, como benefícios trabalhistas, condições de segurança, assistência à saúde. Uma pessoa compra a pedra, mas quem usa é a empreitura e a prefeitura. Então, ela deveria prestar socorro para esse gente, argumenta Manoel.
As queixas foram encaminhadas diversas vezes a Selvino, porém nunca foram atendidas, segundo os denunciantes. Pelo contrário, conforme os marroreiros, toda reivindicação é recebida com ameças por parte do administrador. Este teria sugerido um convite de abandono do trabalho para quem estivesse descontente, além de, em alguns casos, impedir a livre exploração do terreno público. O acusado nega a versão.
A exceção, dentro das relações trabalhistas, aconteceu ano passado, quando os operários conseguiram reajuste salarial concedido após uma greve de três dias. Mas foi só. Enquanto aguardam resposta para o pedido de equipamentos de segurança botas de borracha, capacete, luvas e cordas , os marroreiros continuam a ser vítimas de acidentes.


