Quando os empresários Renan Massaro e Dino Biaggi assistiram a casa noturna Mansão Palhano sucumbir sob as chamas, no início de março em Londrina, viram ruir em poucas horas o projeto de uma vida. A construção do espaço, consolidado no setor de lazer noturno, consumiu todas as economias dos sócios e ainda implicou na contratação de um grande financiamento. Cinco anos depois, quando finalmente começavam a respirar financeiramente, com fôlego para novos investimentos, o incêndio trouxe um prejuízo imensurável, que inclui a reconstrução do imóvel para devolução ao proprietário, pagamento das rescisões dos funcionários que também ficaram desempregados e compromissos com fornecedores cujas mercadorias nem chegaram a ser vendidas.

Diante do fogo, eles contam que sentiram uma "terrível impotência". "Ficamos olhando nosso sonho virar pó sem poder fazer nada", recordam. Mas o sentimento durou pouco. "Em poucos minutos, começamos a receber telefonemas de apoio, mensagens nas redes sociais contando que estavam organizando correntes de orações. Foram essas manifestações que nos deram força para reagir", comentam.

O apoio logo saiu apenas do campo espiritual. Os empresários realizaram uma festa para começar a arrecadar recursos para cobrir os prejuízos e se impressionaram com a adesão. Logo em seguida, familiares e a comunidade do entorno da boate fizeram um boteco solidário. "Pessoas que nem frequentavam a Mansão ajudaram", emocionam-se. Durante a ExpoLondrina, a Sociedade Rural do Paraná cedeu a Casa do Criador para realização de festas capitaneadas pela equipe da Mansão. Para surpresa dos sócios, Djs consagrados no Brasil se ofereceram para tocar sem cobrar cachê. "Todo este acolhimento impediu que entrássemos em depressão. As pessoas dizem que somos fortes, mas foram elas que nos deram a força", agradecem.

Os prejuízos ainda estão longe de serem cobertos. A dupla se empenha, atualmente, em reabrir o pub que funcionava anexo à boate, para começar a gerar renda e, quem sabe, pagar os prejuízos em três ou quatro anos. "As despesas são altas. Gastamos quase R$ 50 mil apenas para retirar entulhos", contam eles, destacando que iniciaram o empreendimento de "cabeça erguida" e assim vão encerrá-lo.

Para continuarem firmes, afirmam que contam com a manutenção da "corrente do bem", com as pessoas apoiando e frequentando os espaços. "As manifestações de solidariedade trazem uma energia muito boa que não nos deixa cair", revelam. A experiência trágica, segundo contam, serviu de "lição". "Muita gente fica bitolada no próprio mundinho e esquece de quem passa dificuldades maiores. Passamos a reagir de forma diferente com relação às más notícias. Demonstramos que nos importamos, ao invés de nos calarmos. Nossa mentalidade mudou, também nos tornamos mais solidários."

Solidariedade requer ação

A psicóloga analítica junguiana Sonia Lunardon Vaz, de Londrina, explica que ser solidário é mais do que "morrer de pena ou compaixão". Uma iniciativa solidária requer uma ação, ou seja, tomar a atitude de fazer algo que alivie o sofrimento ou dificuldade do outro, colaborando na solução de problemas. "Solidariedade é a generosidade em ação", pontua.

Ela destaca que as "correntes do bem" que se formam em torno de grandes ou pequenas tragédias pessoais de certa forma lembram às pessoas que elas estão vivas. "A saúde de nossa vida afetiva está na troca e no envolvimento com o outro. Em uma sociedade patriarcal como a nossa, os valores afetivos têm sido negligenciados e até mesmo desdenhados, pois a frieza é um valor que cai bem para ficar rico e ascender", diz, destacando que ações solidárias trazem de volta um instinto natural permeado pelo afeto.

A solidariedade causa impacto na vida de quem ajuda e de quem recebe, principalmente pela certeza de que "não estamos sozinhos". Para Sonia, exercer ações solidárias é uma opção de saúde psíquica. "Aqueles que as praticam, mesmo quando taxados de bobos ou tolos, menos neuróticos serão. Quanto mais estiverem de acordo com os instintos, mais experimentarão a sensação de pertencimento", acredita.

Sonia destaca que as redes sociais acabam ampliando a solidariedade porque, no mundo virtual, as pessoas são menos defensivas por se relacionarem com os outros apenas pelo computador. "Esse pretenso anonimato e distância colaboram para agirem de modo mais espontâneo", afirma.

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