Atentado completa 20 anos com EUA em crise

Duas décadas após o 11 de Setembro, império americano vem perdendo hegemonia mundial

José Marcos Lopes - Especial para a FOLHA
José Marcos Lopes - Especial para a FOLHA

Duas décadas se passaram desde que o mundo parou para ver as imagens de dois aviões se chocando contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, no maior atentado terrorista já registrado em solo norte-americano. Os atentados de 11 de Setembro de 2001 abriram o século 21 e levaram os Estados Unidos a intensificar a sua "guerra contra o terror", mas desde então o império vem perdendo a hegemonia mundial.  


 

Casal visita memorial em Nova York: ataques de 2001 deixaram quase 3 mil mortos
Casal visita memorial em Nova York: ataques de 2001 deixaram quase 3 mil mortos | Angela Weiss/AFP
 


Os ataques de 2001 deixaram 2.977 mortos. Dos quatro aviões sequestrados pelos terroristas, dois foram jogados contra as torres do World Trade Center, em Nova York, e outro contra o Pentágono, em Washington. O quarto caiu na Pensilvânia, após passageiros enfrentarem os sequestradores. O país foi alvo de diversas ações terroristas depois disso, mas todas de menor porte.  


A ação levou o governo norte-americano a declarar "guerra contra o terror", que resultou na invasão do Iraque e do Afeganistão e na caçada contra Osama bin Laden, fundador e líder da Al Qaeda, grupo que assumiu a autoria dos atentados. A reação americana, no entanto, não teve um efeito positivo para os Estados Unidos e sua posição no mundo, avalia o pós-doutor em Teoria Política e especialista em relações internacionais Gustavo Biscaia de Lacerda.  


"No cômputo geral o saldo é negativo para os norte-americanos. Deve ter ficado um gosto amargo na boca deles", diz o professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná). “Eles tiveram alguns êxitos parciais, tiraram o Saddam Hussein e chegaram a tirar o Talibã do Afeganistão, mas um mês atrás vimos o que aconteceu no Afeganistão. Foi um revés grande." 

 

Ação levou o governo americano a declarar a “guerra ao terror”
Ação levou o governo americano a declarar a “guerra ao terror”
 


Lacerda avalia que a reação de grupos radicais à Primavera Árabe (onda de protestos no mundo islâmico a partir de 2010) e à ofensiva americana tornaram a situação mais frágil em todos os países muçulmanos. “O Iraque é um país ingovernável e houve um fator endógeno nos países islâmicos, que foi a Primavera Árabe. Isso criou um caldo de cultura que propiciou o surgimento do Estado Islâmico, uma pedra no sapato de todo mundo. Se o Talibã era radical, a Al Qaeda é mais radical. E o Estado Islâmico é ainda mais radical”. 


Para o especialista, o crescimento econômico da China, o ressurgimento da Rússia como potência após a queda da União Soviética e os efeitos das políticas de extrema direita minaram a posição hegemônica dos Estados Unidos. “As grandes potências não podem se manter potências indefinidamente. Os Estados Unidos se firmaram como potência em 1945 (ano do fim da Segunda Guerra Mundial), mas o resto do mundo estava em frangalhos”, diz Lacerda. “As maluquices do Donald Trump e do Bannon (Steve Banon, ex-assessor de Trump) levaram os Estados Unidos a uma situação de repúdio à ONU (Organização das Nações Unidas) e a um afastamento da Europa, que sempre foi um baluarte fundamental na hegemonia americana. O saldo desde 2001 é negativo, apesar de alguns sucessos temporários”. 


Os atentados obrigaram os países ocidentais a aumentarem a segurança nos voos e deram uma espécie de “carta branca” para o governo norte-americano ampliar seus mecanismos de espionagem. Leis aprovadas a partir de 2001 autorizaram o FBI a investigar por tempo indeterminado pessoas que não tinham cometido nenhum crime, mas eram consideradas terroristas em potencial.  


TESTEMUNHA 

Natural de Ibaiti (Norte Pioneiro), o empresário Ênio Ribeiro de Andrade tinha 54 anos e estava em Nova York no dia dos atentados. Ele viu o segundo avião se chocar contra uma das torres do World Trade Center. “Eu estava dormindo no hotel e minha filha, que estava em Curitiba, ligou preocupada. Eu, minha mulher e meu filho descemos e vi o segundo avião bater”, lembra. “Às vezes a cena ainda passa pela minha cabeça, foi inacreditável. Não sabíamos o que podia vir na sequência, todo mundo saiu correndo na direção do Central Park”. 


Andrade (que era presidente do Paraná Clube na época) esteve nas Torres Gêmeas na véspera dos ataques. Ele e a mulher estavam nos Estados Unidos para a formatura do filho, em Boston, de onde o grupo seguiu para Nova York. “Minha mulher faz aniversário no dia 12 de setembro. Na noite do dia 10 eu estive em um restaurante no World Trade Center para reservar uma mesa”, conta. 


Depois do atentado, a família teve que permanecer mais uma semana em Nova York. “A cidade estava um caos, com tanques de guerra e o exército para todo lado”, afirma. “Ficamos uma semana em situação precária, sem poder viajar. Até que conseguimos pegar um voo para Miami e depois para Manaus.” Depois disso, Andrade voltou para Nova York e visitou o Memorial do 11 de Setembro, no local onde ficavam as torres. “Voltamos algumas vezes e fui no Memorial. É de arrepiar lembrar que participei de tudo aquilo”.(Com Folhapress) 


Receba nossas notícias direto no seu celular, envie, também, suas fotos para a seção 'A cidade fala'. Adicione o WhatsApp da FOLHA por meio do número (43) 99869-0068 ou pelo link wa.me/message/6WMTNSJARGMLL1.

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito
Assine e navegue sem anúncios [+]

Últimas notícias

Continue lendo