O aposentado José Carlos da Silva Brito, 64 anos, é cadeirante e mora em uma rua sem asfalto no Conjunto Primeiro de Maio, em Assaí (Norte Pioneiro). ''Tenho uma cadeira motorizada, que está no conserto, em Londrina. Com essa aqui (aponta para a cadeira que está usando, sem motor), subir a rua é um esforço muito grande. Por esses dias, tenho ficado mais em casa'', lamenta.
Além das dificuldades de locomoção, os moradores do Primeiro de Maio se queixam de que, quando chove, a água escorrendo (o terreno do bairro é inclinado), o acúmulo de poças e a lama deixam as ruas impossíveis de trafegar. Quando não chove, o transtorno é a poeira, que invade casas e provoca problemas respiratórios.
Na Avenida Industrial, na Vila São Pedro, vizinha do Conjunto Primeiro de Maio, o asfalto também não chegou. ''Bairros mais novos já têm asfalto e calçada, e aqui nada ainda'', critica o jardineiro José Edeval Matias de Lima, morador da localidade. ''Isso aqui é um problema para mulheres grávidas e crianças. Tenho um filho de oito anos que sofre de bronquite'', diz a dona de casa Maria Clara, filha de José Edeval e mãe de três crianças.
A exemplo dos entrevistados pela FOLHA, muitos paranaenses ainda têm que lidar com os transtornos de morar em vias não asfaltadas. Números da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados recentemente, mostram que o número de residências localizadas em ruas sem pavimentação diminuiu de forma expressiva na década passada no Paraná. Ainda assim, uma grande parcela dos domicílios ainda convive com o problema.
Em 2003, havia 1,1 milhão de residências no Paraná nessa condição, o que representava 39,8% do total de domicílios. Em 2009, eram 985 mil domicílios, ou 29,8% do total.
Os números nacionais e regionais estão próximos da realidade paranaense. Em 2009, segundo a POF, 31,1% dos domicílios brasileiros estavam localizados em ruas sem asfalto. Na Região Sul, 36,6% estavam nessa situação.
O prefeito de Barracão (Sudoeste) e diretor da Associação dos Municípios do Paraná (AMP), Joarez Henrichs (DEM), afirma que a maioria dos 399 municípios paranaenses possui menos de 20 mil habitantes - com orçamentos reduzidos e já comprometidos com despesas correntes, praticamente não há sobra no caixa das prefeituras para obras de pavimentação.
''Esses municípios não têm recursos para investir em estrutura. Se não houver alguma parceria com o Governo do Estado ou Federal, alguma emenda parlamentar, fica difícil fazer. Só têm condições os municípios grandes e aqueles que recebem alguma compensação, como royalties'', diz Henrichs.
PAC 2
A Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Paraná (Sedu) relatou que, entre janeiro do ano passado e junho deste ano, liberou R$ 73 milhões a fundo perdido para obras de pavimentação em 261 municípios. O Governo Federal informou que a segunda etapa do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC 2) vai investir R$ 7,4 bilhões em pavimentação de ruas nas cidades brasileiras até 2014.
Procurada pela FOLHA, a Prefeitura de Assaí informou que projetos de pavimentação de ruas do município, que incluem o Conjunto Primeiro de Maio e a Vila São Pedro, foram encaminhados para possível inclusão no PAC 2. A administração municipal apontou que em muitas situações loteamentos são feitos em áreas particulares, e a prefeitura fica com o ônus de investir na infraestrutura da localidade - o que pode ser feito apenas depois do processo de regularização fundiária.

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