Aposentado nasceu no século 19
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sábado, 12 de maio de 2001
Benedito Teles De Santo Antônio da Platina 
Não fui escravo, mas convivi com vários negros desta época comenta o aposentado José Pereira Soares de Araújo. Seus documentos registram o nascimento em 20 de outubro de 1897, no distrito de Setubinha, em Minas Gerais. Hoje, com 103 anos, Araújo conta que conheceu Jacarezinho quando a cidade era composta por algumas casas enfileiradas perto do Rio Jacaré.
Apesar do registro, Araújo acredita que tenha 114 anos. Sua mulher Isabel Leopoldo de Araújo, 48 anos, explica que ele tirou o documento de identidade somente para constar da carteira de trabalho na década de 70, mas também acredita que o marido tenha uma idade bem superior. Ela conta que conheceu e se casou com Araújo na década de 80, logo após ter ficado viúvo.
Em uma casa de cinco cômodos localizada em um bairro da periferia de Jacarezinho moram Araújo e mais 10 pessoas. Isabel faz questão de ressaltar que a aposentadoria de Araújo foi fundamental para a criação de seus filhos e netos. Ficamos juntos porque eu cuidei dele e ele colaborou na criação de meus filhos. A mulher não conseguiu se aposentar. Apesar de dores no corpo, segundo ela, trabalhava até a semana passada no lixão.
Araújo conta, com detalhes, que quando chegou em Jacarezinho pela primeira vez no município (que completou 101 anos) não tinha nome. Segundo ele, as denominações não pegavam. Só Jacarezinho pegou, mas volta e meia aparecia um novo nome, lembra.
Naquela época, as matas virgens abrigavam animais e grandes árvores. Apontado o dedo na direção do centro da cidade, ele narra seu encontro com uma onça. Foi naquela região. Eu caminhava em uma trilha quando me deparei com a onça, só tive tempo de fugir, afirma com convicção.
Araújo conta que chegou no município com 14 anos. Ele morava em uma região próxima da Bahia e diz que percorreu várias vezes o trajeto entre Jacarezinho e sua terra natal. O aposentado afirma que na primeira vez que veio para a cidade acompanhou seus familiares. A viagem durou cerca de 36 horas em cima de um caminhão. Saímos na noite de um dia e chegamos no amanhecer do segundo dia.
Ficou durante algum tempo na cidade mas depois retornou para a sua terra natal, no Norte de Minas Gerais.
Araújo teve apenas quatro filhos: duas mulheres e dois homens. Não tem notícia de nenhum deles. Ele acredita que uma das filhas mora em Cambará, mas afirma que não sabe o destino dos demais. A memória de Araújo também falha quando tenta recordar o número de mulheres com quem viveu. Cita quatro, mas a mulher atual acredita que foram mais de seis.
O aposentado conta que ficava na cidade por períodos curtos e, em seguida, voltava para Minas. Só veio definitivamente para Jacarezinho na década de 50. No início fazia qualquer serviço. Amansei muito burro. Mas só me acertei mesmo foi como segurança de uma usina de açúcar. O registro da carteira de trabalho mostra o dia da admissão na usina, 22 de junho de 1979, e o ano da saída: 1994.
Araújo vive da aposentadoria e cultiva arroz e milho no terreno da casa. Ele não revela o segredo para se manter lúcido e entusiasmado com a vida, mas garante que em mais de um século de existência aprendeu a respeitar. Temos que respeitar tudo, desde as crianças até os velhos, murmurou, enquanto sua família tentava dividir a cesta básica repassada pela prefeitura.


