Quem voltou dos Estados Unidos após os atentados tem uma visão um pouco diferente da situação. ''É uma coisa passageira, logo passa e se eu conseguir o visto volto para lá'', diz o agricultor José Luis Lopata, que retornou na semana passada por causa de um problema de saúde. ''Teria que ficar 40 dias sem trabalhar, e ficar parado com essa guerra, não era vantagem. Pensei na minha família, no meu pai que estava com os três filhos homens lá e voltei.'' A esposa de Lopata, Maria, estava sozinha cuidando dos três filhos num sítio no distrito rural de Palmital, em Reserva.
Lopata não teve as melhores experiências de sua vida nos Estados Unidos. Entrou no país pela fronteira com o México e por causa disso ficou 28 dias preso, passando fome e sofrendo humilhações. Foi preciso pagar US$ 3,5 mil para conseguir a liberdade de novo. Ficou doente, passou por uma cirurgia, teve que parar de trabalhar e ainda viveu o clima de desespero que tomou conta dos Estados Unidos.
Ainda assim, nos 11 meses que ficou por lá, ele conseguiu pagar o que devia para sua mãe, para o sogro e para o banco. As dívidas vieram da frustração da safra de feijão. ''A gente planta pensando que vai receber R$ 50,00 pela saca e recebe R$ 20,00.''
Com o dinheiro que sobrou ele comprou um carro zero-quilômetro e tem mais de R$ 30 mil para investir em gado. Lucro das mais de 12 horas de trabalho diário durante os 11 meses que passou conservando as pontes de Manhattan e Nova Jersey. ''É um país onde você consegue ganhar dinheiro só com as suas mãos'', diz o agricultor. Por isso ele quer voltar.
No dia dos ataques terroristas, Lopata estava trabalhando numa ponte entre Nova Jersey e a Pensilvânia. Segundo ele, o avião que caiu na Pensilvânia estava a seis quilômetros do local onde ele trabalhava. ''O nosso chefe nos avisou que estava começando uma guerra em Nova York e liberou quem quisesse ir para casa. Nós trabalhamos até as 16 horas e fomos embora. Da janela da casa da minha cunhada dava para ver as torres, mas aquele dia era só fumaça.''
Lopata, que tinha visitado as torres uma semana antes dos ataques, decidiu não voltar a Nova York. Mesmo do outro lado do Rio Hudson, ele diz que era possível sentir o mau cheiro. ''Não quis visitar um lugar onde há centenas de pessoas despedaçadas.'' (D.A.)

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