No México, no Brasil, no Chile e na Venezuela o apoio do Estado é vital para os portadores do vírus, pois, em nível privado, o custo dos anti-retrovirais está entre US$ 700 e US$ 1 mil mensais, impagável para a grande maioria. Embora os governos tenham ainda muito a fazer, é claro que antes a situação era bem mais difícil. A melhora em qualidade e quantidade do atendimento médico custou trabalho e vidas, na opinião unânime dos ativistas e os governos.

Em 1998, o chileno Anthony Garcia e outros dois portadores do vírus pediram na Justiça que o país fosse obrigado a lhes fornecer anti-retrovirais. Os juízes locais recusaram o pedido, mas a Corte Interamericana de Direitos Humanos lhes deu ganho de causa. Garcia vive e recebe do Estado hoje, gratuitamente, os medicamentos de que necessita, mas os seus companheiros de ação morreram durante a batalha judicial.

A mudança em matéria de combate à Aids na América Latina tem a ver com o ativismo dos enfermos, com a mobilização de organismos internacionais e com as negociações dos governos com as empresas farmacêuticas em nome do barateamento dos remédios específicos para o tratamento. Em alguns casos, a redução de preços atingiu 80%. Não se trata, todavia, de uma conquista integral.

Ainda são poucos, na região, os pacientes que recebem do Estado um tratamento similar ao que tem o mexicano Estrada. ''Lamentavelmente, neste país (México) e em outros é preciso reivindicar, gritar para que aconteça alguma coisa'', resume Estrada.

O apoio psicológico, a frequência dos exames de laboratório, a cura e o controle das enfermidades geradas pela Aids são ainda precários na maioria dos países, segundo os ativistas. ''O serviço médico do Estado é péssimo e os medicamentos nem sempre estão à disposição. Levo um ano pedindo um novo, mas me dizem que devo esperar'', lamenta Humberto, um mexicano de 35 anos, dispensado do emprego em uma empresa de comunicação aos 31, logo depois de ter sido diagnosticado como portador do HIV.

Arturo Gonzalez, da Venezuela, opina que ''ainda há marginalização e insensibilidade, inclusive entre os médicos'', mas acredita que o atendimento está mudando, ''porque sabem que agora estamos dispostos a defender os nossos direitos''.

Os especialistas indicam que quanto melhor for o atendimento aos enfermos, menor será o custo para os governos. Quem duvidar que pergunte ao Brasil. Ali, a entrega de coquetéis de medicamentos entre 1995 e 1999 reduziu à metade o índice de mortalidade pela Aids. Apenas na cidade de São Paulo, que concentra 21% dos casos notificados, a redução foi de 54%. Além disso, entre 1997 e 2000, reduziram-se em 80% os internamentos hospitalares relacionados com a Aids ou com as enfermidades oportunistas por ela desatadas. Em conjunto, a melhora no atendimento representou para o governo brasileiro economia de US$ 667 milhões, segundo as autoridades.

Os governos da América Latina reconhecem o impacto da redução de custos, mas argumentam que os problemas econômicos conjunturais limitam os seus objetivos. Não obstante, prometem que farão até o impossível para ampliar a qualidade e a quantidade da cobertura médica. ''A experiência coletiva quanto à Aids evoluiu até o ponto de se poder afirmar que é técnica, política e financeiramente factível reduzir radicalmente a sua propagação e impacto'', disse Kofi Annan, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Até que isso aconteça, oferecer um atendimento integral e de qualidade aos infectados pelo HIV, como a que recebe o mexicano Estrada, continuará sendo uma meta por alcançar na maioria dos países.

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