Érika Pelegrino
De Londrina
As dificuldades, o preconceito, a discriminação, a revolta, o medo, são os mesmos obstáculos e sentimentos que a grande maioria dos mortais experimenta quando a vida lhes apresenta uma situação limite. A forma como a pessoa vai trabalhar esta situação e o que vai extrair desta experiência é que faz a diferença entre as ‘‘vítimas’’ e os ‘‘transformadores de tragédia em lição de vida’’.
Andréa Caviglione, 32 anos, não perde muito tempo falando das mazelas de perder a visão aos 22 anos, quando terminava o curso de educação artística. Resumidamente ela conta que foi um choque – ‘‘Imagine você estar terminando um curso essencialmente visual e perder a visão’’. Durante um período ficou na expectativa de recuperar a visão.
Neste tempo chegaram a sugerir a ela desde tratamento nos Estados Unidos até curandeiros. ‘‘Mas isso foi apenas durante dois ou três meses. Depois caí na real’’, conta. ‘Cair na real’ significava para Andréa duas opções: se comportar como vítima e ficar com pena dela mesma, ou crescer com o problema que estava enfrentando.
Optou pela segunda alternativa e partiu para a busca de uma nova forma de trabalho, já que o sonho de ser professora de educação artística teve que ser abandonado. Enfrentou preconceitos, é claro. ‘‘Não adianta que o mercado de trabalho não dá oportunidade para quem tem alguma deficiência’’, afirma.
Recebeu, também, todo tipo de sugestão. ‘‘Me disseram para trabalhar com informática, mas eu me recusei’’, conta. Andréa tinha perdido a visão, mas não a aptidão para trabalhar com o ser humano. ‘‘Meu objeto de trabalho sempre foi o humano. Tanto que fiz educação artística para ser professora. Antes já tinha feito magistério’’, lembra.
O novo caminho surgiu através de sua fisioterapeuta que sugeriu o trabalho com massagens. Andréa achou a idéia boa e passou a fazer diversos cursos – shiatsu, do-in, até teatro. Durante oito anos, ela enveredou na área de terapia corporal através de massagens. Andréa afirma que foi um período bom, tanto que ainda hoje atende pessoas, ‘‘mas só as que estão com dor’’.
Neste meio tempo foi incentivada a escrever um livro. Leu ‘‘Feliz Ano Velho’’, de Marcelo Rubens Paiva, e ficou com a certeza de que ao contrário do autor, queria mostrar o ‘‘ser feliz’’ depois do acidente e não antes. Foi registrando suas emoções, impressões, experiências e no final do ano passado se preparava para começar a dar forma ao livro quando ficou sabendo que a escola em que seu sobrinho estudava – ‘‘Pé de Moleque’’ – estava a venda.
Andréa percebeu que estava pronta para resgatar seu velho sonho. O livro foi engavetado. Com a irmã Marianne e a mãe Maria Eunice, ela comprou o estabelecimento e em dezembro começaram a trabalhar.
Em fevereiro as aulas tiveram início. O livro engavetado foi substituído pelo trabalho na escola. ‘‘A mensagem que quero passar talvez não tenha a mesma abrangência que teria com um livro, mas a qualidade e intensidade do trabalho que estou realizando com as crianças, sem dúvida é muito maior’’, diz.
Foram 10 anos de gestação, como ela mesma diz, importantes para adquirir maturidade e auto-confiança. Em outro momento, Andréa afirma que não teria ‘‘peito’’ para o empreendimento. Mesmo antes do acidente ela era outra pessoa. Tinha muita energia, mas faltava persistência, era o que costuma-se chamar de ‘‘fogo de palha’’.
Hoje a postura de Andréa no trabalho e na vida é outra. Na escola, em apenas dois meses, já superou a dificuldade das crianças com sua deficiência e conquistou o respeito dos pais. Ter uma professora cega não parece problema para os alunos, que têm idades entre 0 a 6 anos.
‘‘Os alunos que ainda são muito pequenos, quando vêm me mostrar um desenho eu explico que meus olhos ficam nas pontas dos dedos. As maiores já chegam pegando na minha mão quando querem que eu ‘veja’ alguma coisa’’, conta.
A conquista do respeito, carinho e confiança das crianças tem uma receita simples: Andréa é espontânea e autêntica. ‘‘Sou exatamente aquilo que penso e acredito’’.
Ela realizou o sonho de trabalhar como professora e afirma que sabe muito bem qual o seu objetivo como educadora. Sua grande preocupação é com a inversão de valores e em criar cidadãos capazes de respeitar uns aos outros, por isso o conceito de respeito é trabalhado constantemente. ‘‘Percebi que eles não sabem o que é respeito. Sabem apenas que costumam dizer – ‘me respeitem’’?
Com questionamentos simples – ‘‘Vocês gostariam que eu chegasse aqui e rasgasse um trabalho de vocês?’ – Andréa mostra na prática o que para crianças é apenas um conceito abstrato. Neste trabalho, segundo ela, tratar o aluno com respeito é fundamental.
‘‘Não é chegar e dar sabão. Em primeiro lugar se o assunto é sério, ou eu fico sentada, ou de joelhos, para ficarmos na mesma altura. Parece besteira, mas é importante para que elas (as crianças) sintam que estamos em uma situação de igualdade’’, argumenta.
A professora introduziu no cotidiano escolar de seus alunos a participação nas decisões, o que para muitos era novidade. ‘‘Costumo perguntar se querem ser papagaios, robôs ou cabeças pensantes. Por isso tomamos algumas decisões em conjunto, através do voto. E eu acato a decisão delas, isto é respeito’’.
Para se ter uma idéia do estilo de Andréa, outro dia uma aluna perguntou o que era harmonia. Ela não pensou duas vezes, pegou o grupo e levou para o pátio onde todos tiraram os sapatos e deitaram-se embaixo de uma árvore para ‘sentir’ a harmonia.
Tudo é trabalhado com muita espontaneidade através das aulas de educação artística, que têm na sucata a matéria-prima básica. As atividades vão sendo escolhidas conforme o interesse do grupo. ‘‘Quando percebo que um trabalho não está rendendo, pergunto se querem continuar, se não querem, mudamos de atividade’’, conta.
Andréa não só conseguiu retomar seu antigo sonho, como está imprimindo em seus alunos uma forma especial de perceber o mundo. O segredo, segundo ela, é não ficar se sentindo uma vítima das circunstâncias e correr atrás daquilo que acredita.Professora perdeu a visão quando tinha 22 anos e estava para se formar na universidade. Mas transformou a tragédia em lição de em vida
Dorico da SilvaFORTE DECISÃOAndréa Caviglione na sala de aula com os seus pequenos alunos: ‘‘Meu objeto de trabalho sempre foi o humano’’

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