Amélia foi à luta com um fusca e papelão
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sábado, 08 de setembro de 2001
Maranúbia Barbosa 
''Amélia é que era mulher de verdade'', diz o refrão da música de Mário Lago e Ataulfo Alves. A mulher da música, conformada com a sorte, teria muito que aprender com Amélia Pettinati da Silva, 65 anos, moradora em Londrina, no Jardim Maringá (zona oeste). Digna, ela ganha o pão de cada dia catando papel na porta de condomínios na zona sul e residências. Corajosa, roda pela cidade a 20 quilômetros por hora em um fusquinha vermelho, chamando a atenção de quem cruza o seu caminho.
Amélia, mulher com 'M' maiúsculo, é paranaense de Iguaraçu (34 km ao norte de Maringá), viúva, quatro filhos, sete netos e sustenta sozinha a casa. É responsável pela filha solteira, Ivonete, 35 anos, portadora de necessidades especiais. Para cada quilo de papel que recolhe, ganha R$ 0,10. Depois de muito circular pelas portas de edifícios, de manhã e à tarde, ela consegue carregar o fusca com cerca de 20 quilos de papel. Trabalhando de segunda à sexta, a catadora recolhe por mês cerca de mil quilos, mas não arrecada mais do que um salário mínimo por mês (R$ 180,00).
Competente, consegue administrar tudo o que ganha e realiza uma verdadeira ''multiplicação'' dos poucos recursos arrecadados como catadora de papel. Conseguiu construir uma casa de quatro cômodos no terreno comprado pelo marido, o sorveteiro Benjamin Gomes dos Santos, que morreu atropelado enquanto trabalhava, há 25 anos, na Avenida Faria Lima, área central. Em um terreno de cerca de 250 metros quadrados, Amélia construiu ainda um ''puxado'' de três cômodos, que aluga por R$ 130,00.
Dinâmica, incansável, ''um pé de boi'', como dizem os conhecidos, Amélia puxou carrinho de papel pelas ruas da cidade durante 12 anos. Há quatro anos, cansou de subir e descer ladeira sustentando nos punhos o peso da ferramenta de trabalho. Dona de um fusca 69, de um tom de vermelho já desbotado pela ação das intempéries, ela resolveu usá-lo para trabalhar. O problema era: Amélia não tinha carteira de habilitação. Mas no dicionário dela não existe a palavra impossível. Pedindo licença aos incrédulos, ela foi à luta e entrou para uma auto-escola. Ao todo, foram 10 aulas em um Centro de Formação de Condutores.
A condição de analfabeta não representou muitas dificuldades para Amélia, mas ela confessa que teve um ''empurrãozinho'' da professora para obter a carteira de motorista. ''Ela entendeu que eu precisava do documento e me deu uma força'', explicou. Devidamente regularizada, a catadora de papel encheu o tanque do fusca e ganhou as ruas. Encher o tanque, corrige ela, é maneira de dizer. ''Coloco R$ 10,00 por semana, mas dá para rodar porque o carrinho é econômico'', afirma. O maior problema é o estado geral do veículo, que vive enguiçado. Colocando todas as despesas na ponta do lápis, boa parte do dinheiro que ganha acaba ficando nos postos de gasolina. ''Sai elas por elas'', observa.


