Além de assustar os brasileiros que compram mercadorias em Ciudad del Este no Paraguai, a alta na cotação do dólar está mudando o hábito já considerado irresponsável dos sacoleiros. Com a moeda norte-americana atingindo a casa dos R$ 2,28, os cigarros brasileiros comprados ilegalmente no Exterior estão sendo substituídos por produtos paraguaios, que chegam a custar até 50% menos
Mesmo proibido por lei federal, o contrabando de cigarros é comum na Ponte da Amizade (que liga Foz do Iguaçu a Ciudad del Este). Todos os meses, cerca de 250 mil pacotes (com dez maços cada) são apreendidos pela Receita Federal. Até 1999, era expressiva a quantidade de produtos ‘‘made in Brazil’’ recolhidas nas aduanas e em vistorias realizadas nos ônibus de sacoleiros.
Marcas tradicionais conhecidas entre os brasileiros, exportadas para o país vizinho isentas de taxas como IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) eram compradas em dólar e contrabandeados de volta para o Brasil.
Mas a crise econômica brasileira, aliada às variações no câmbio ocorridas nos últimos meses, está mudando o hábito dos sacoleiros e, em decorrência disso, alterando o gosto do fumante de baixa renda. Marcas famosas produzidas pela indústria paraguaia, como Palermo e LS, são passadas ilegalmente pela fronteira chegando às bancas dos camelôs onde dividem espaço com cigarros de nomes estranhos e desconhecidos, entre eles Saxxon, Loto, Bill, Calvert, Broadway.
‘‘Entre os 3 milhões de pacotes mantidos aqui, temos mais de 500 nomes diferentes. A maioria dos cigarros apreendidos é de origem paraguaia’’, resumiu o chefe do depósito da Receita Federal em Foz, Samuel Benck Filho, lembrando ainda que somente esta mercadoria apreendida ocupa 40% de todo o barracão.
O obra do Ministério da Fazenda tem 5,4 mil metros quadrados. As medidas da ‘‘montanha’’ de cigarros são consideráveis: 68 metros de comprimento por 17 de largura e seis metros de altura. Para tentar diminuir o estoque sem precisar encinerar o produto, a diretoria da RF decidiu (em março deste ano) triturar o produto e reutilizá-lo na recuperação de solos degradados e preservação ambiental.
Há dez dias, o Provopar recebeu o primeiro lote de cigarros reciclados. Foram dois mil fardos, com 408 mil pacotes de cigarros triturados. Somente este lote, avaliado em R$ 1,4 milhão, totalizou 100 toneladas.
Segundo informações do Ministério da Saúde, atualmente 33,1% da população brasileira são fumantes. Além de registrar cerca de 80 mil mortes anuais atribuídas ao cigarro, o País perde, em média, R$ 1,2 milhão em impostos todos os anos por causa do contrabando.
Para tentar coibir a entrada ilegal da mercadoria, os fiscais da RF em Foz estão usando uma lei existente desde 1985, que penaliza o ‘‘cigarreiro’’ com multas e o obriga a recolher os impostos que deixaram de ser pagos legalmente.
A cobranças, enviadas ao infrator pelo correio, variam de R$ 0,70 (cigarro estrangeiro) a R$ 0,90 (produto de origem brasileira) para cada pacote retido. Caso não seja recolhida a multa, o nome do autuado será inserido no Cadastro de Inadimplentes (Cadim), impedindo-o de conseguir certidões negativas na Justiça. Ele terá que responder ainda um processo por contrabando e descaminho.

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