Alta do dólar muda hábito de sacoleiros
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de maio de 2001
Emerson Dias De Foz do Iguaçu 
Além de assustar os brasileiros que compram mercadorias em Ciudad del Este no Paraguai, a alta na cotação do dólar está mudando o hábito já considerado irresponsável dos sacoleiros. Com a moeda norte-americana atingindo a casa dos R$ 2,28, os cigarros brasileiros comprados ilegalmente no Exterior estão sendo substituídos por produtos paraguaios, que chegam a custar até 50% menos
Mesmo proibido por lei federal, o contrabando de cigarros é comum na Ponte da Amizade (que liga Foz do Iguaçu a Ciudad del Este). Todos os meses, cerca de 250 mil pacotes (com dez maços cada) são apreendidos pela Receita Federal. Até 1999, era expressiva a quantidade de produtos made in Brazil recolhidas nas aduanas e em vistorias realizadas nos ônibus de sacoleiros.
Marcas tradicionais conhecidas entre os brasileiros, exportadas para o país vizinho isentas de taxas como IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) eram compradas em dólar e contrabandeados de volta para o Brasil.
Mas a crise econômica brasileira, aliada às variações no câmbio ocorridas nos últimos meses, está mudando o hábito dos sacoleiros e, em decorrência disso, alterando o gosto do fumante de baixa renda. Marcas famosas produzidas pela indústria paraguaia, como Palermo e LS, são passadas ilegalmente pela fronteira chegando às bancas dos camelôs onde dividem espaço com cigarros de nomes estranhos e desconhecidos, entre eles Saxxon, Loto, Bill, Calvert, Broadway.
Entre os 3 milhões de pacotes mantidos aqui, temos mais de 500 nomes diferentes. A maioria dos cigarros apreendidos é de origem paraguaia, resumiu o chefe do depósito da Receita Federal em Foz, Samuel Benck Filho, lembrando ainda que somente esta mercadoria apreendida ocupa 40% de todo o barracão.
O obra do Ministério da Fazenda tem 5,4 mil metros quadrados. As medidas da montanha de cigarros são consideráveis: 68 metros de comprimento por 17 de largura e seis metros de altura. Para tentar diminuir o estoque sem precisar encinerar o produto, a diretoria da RF decidiu (em março deste ano) triturar o produto e reutilizá-lo na recuperação de solos degradados e preservação ambiental.
Há dez dias, o Provopar recebeu o primeiro lote de cigarros reciclados. Foram dois mil fardos, com 408 mil pacotes de cigarros triturados. Somente este lote, avaliado em R$ 1,4 milhão, totalizou 100 toneladas.
Segundo informações do Ministério da Saúde, atualmente 33,1% da população brasileira são fumantes. Além de registrar cerca de 80 mil mortes anuais atribuídas ao cigarro, o País perde, em média, R$ 1,2 milhão em impostos todos os anos por causa do contrabando.
Para tentar coibir a entrada ilegal da mercadoria, os fiscais da RF em Foz estão usando uma lei existente desde 1985, que penaliza o cigarreiro com multas e o obriga a recolher os impostos que deixaram de ser pagos legalmente.
A cobranças, enviadas ao infrator pelo correio, variam de R$ 0,70 (cigarro estrangeiro) a R$ 0,90 (produto de origem brasileira) para cada pacote retido. Caso não seja recolhida a multa, o nome do autuado será inserido no Cadastro de Inadimplentes (Cadim), impedindo-o de conseguir certidões negativas na Justiça. Ele terá que responder ainda um processo por contrabando e descaminho.


