Só comprar com base em dignóstico feito a campo. Se esta regra, aparentemente simples, fosse seguida pelos produtores, provavelmente o Brasil conseguiria reduzir os índices do comércio local de agrotóxicos e, quem sabe, não mais liderar o ranking mundial de comercialização destes produtos. ‘‘Hoje, muitos antecipam a aplicação para não se arriscar e acabam pecando pelo excesso’’, aponta o engenheiro agrônomo, Luiz Antonio Odenath Penha, pesquisador do Instituto Agrônomico do Paraná (Iapar) na área de fitotecnia.
  Ele revela que uma prática comum tem sido a compra de insumos na forma de ‘‘pacote’’. ‘‘No momento em que o produtor adquire as sementes e o fertilizante, já lhe são oferecidos, a um menor custo, o herbicida, o fungicida e o inseticida, com base em experiências de anos anteriores. Quer dizer, os produtos são indicados com base em probabilidade e não em realidade. É uma forma de as empresas garantirem a venda.’’ Com os produtos em mãos, várias situações podem induzir o agricultor ao uso exagerado ou mesmo desnecessário do produto.
  Uma das possibilidades apontadas pelo pesquisador é a baixa infestação por determinado tipo de praga, como lagarta, em apenas uma área da lavoura, que não compensaria o uso de veneno. ‘‘Mas o produtor, prevendo que em determinada época pode acontecer uma grande infestação, ou temendo períodos de chuva, que invibializam a aplicação de defensivos, opta pela utilização preventiva’’, explica Odenath. Outra situação é o uso de sementes melhoradas, mais produtivas, porém com menos mecanismos de defesa. ‘‘Por isso trabalhamos para desenvolver variedades mais produtivas, mas que também tenham boa resistência e tolerância às doenças’’, observa o agrônomo.

Agravantes
  A luta para diminuir o uso de agrotóxicos também esbarra em questões culturais ligadas ao manejo da propriedade. ‘‘Quando não há rotação de culturas, o risco da ocorrência de pragas e doenças é potencializado. Como os produtores ‘se especializam’ em determinadas culturas tradicionais e têm toda a estrutura montada para produzi-las, não se arriscam em outras. Além disso, há a questão comercial. Os preços superiores de determinados produtos fazem com que o produtor aposte sempre nas mesmas culturas.’’
  Este comportamento é confirmado pelo também engenheiro agrônomo João Miguel Toledo Tosato, fiscal estadual da Área de Fiscalização de Agrotóxicos e Afins da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar). ‘‘Infelizmente, com o abandono de práticas alternativas de controle de pragas, como o manejo integrado, e sem o correto diagnóstico a campo, tem ocorrido o uso indiscriminado de agrotóxicos.’’ Isto, segundo o agrônomo, favorece a resistência de pragas e exige que o agricultor use cada vez mais defensivos.
  A falta de manutenção dos equipamentos utilizados para a aplicação dos produtos é outro agravantes, de acordo com Luiz Antonio Odenath. O pesquisador do Iapar alerta que equipamentos gastos ou desregulados podem levar ao desperdício e até ao uso duplicado de agrotóxico. ‘‘Há casos, por exemplo, em que as gotas liberadas são muito pequenas e acabam levadas pelo vento. Além de não resolver o problema, contamina desnecessariamente as áreas vizinhas, obrigando o produtor a fazer uma segunda aplicação’’, exemplifica.
  Também há casos de desrespeito às áreas de preservação ambiental, que somado à ausência de terraceamento e curvas de nível, resulta na contaminação das nascentes. De acordo com Odenath, há anos o Iapar trabalha no desenvolvimento de sementes que sejam ao mesmo tempo produtivas e resistentes, e de técnicas que permitem o manejo integrado da propriedade. Para Tosato, a redução no uso de agrotóxicos só será possível ‘‘a partir do momento em que a ciência agronômica prevalecer sobre o interesse comercial’’.

mockup