ALERTA - 'A única certeza é que não tenho mais meu filho'
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sábado, 21 de maio de 2016
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
É com o objetivo de alertar pais de crianças e adolescentes sobre os perigos dos jogos de não oxigenação que Viviane Soares, de Fortaleza (CE), fala sobre as circunstâncias da morte do único filho, Leandro Henrique, aos 14 anos, vítima da prática de uma das brincadeiras. "Quando relato o que aconteceu com meu filho, não busco piedade, mas pretendo fazer um alerta para que outros pais não passem pelo mesmo que eu. E que outras crianças não tenham a ingenuidade que meu filho teve", diz.
Viviane conta que o filho morreu após praticar a brincadeira da asfixia inalando desodorante. "Soube que ele já tinha feito o mesmo no colégio e que um grupo de amigos estava 'treinado' para um campeonato. A tragédia que aconteceu com meu filho de certa forma evitou a morte coletiva de muitos meninos", acredita.
Após a morte, amigos do filho confirmaram os fatos e até pediram desculpas pelo ocorrido. "Eles achavam que era uma brincadeira para treinar o fôlego, desafiar limites. Não achavam que era algo errado", diz a mãe, que recebeu um primeiro laudo que atestava o suicídio como causa da morte, mas conseguiu reverter a informação para "asfixia mecânica". "Ele teve uma parada cardiorrespiratória, mas foi encontrada a substância do desodorante nas vias respiratórias e no pulmão", lamenta.
O filho, conforme Viviane, reclamava de dor de cabeça e apresentava olhos vermelhos. "Levei ao médico, mas ele não diagnosticou nada. Também estava com o sono alterado, mas diziam que era normal na adolescência", conta. O aumento no consumo de desodorante também foi percebido pela mãe. "Ele dizia que estava precisando porque transpirava muito."
Ela não sabe como Leandro Henrique começou a participar dos desafios, mas não consegue se livrar da "culpa" por não ter conseguido evitar a morte. "A verdade é que não sabemos direito o que aconteceu. A única certeza é que não tenho mais meu filho", diz.
As conversas sinceras com o filho, descrito por ela como um adolescente carinhoso, amoroso e tranquilo, não foram suficientes para evitar a tragédia. "Conversávamos sobre o risco das bebidas e das drogas, a importância de usar preservativo... Mas, infelizmente, não pude alertá-lo sobre um perigo que eu nem mesmo sabia que existia", afirma.
A mesma tristeza de Viviane é compartilhada pelo professor e pesquisador Adauto Leitão, também de Fortaleza, que perdeu o filho Breno, antes mesmo de completar 18 anos, vitimado pelo desafio do desodorante no início deste ano. "Foi um grande baque", conta ele, que aceitou o laudo de "causa desconhecida" no atestado de óbito porque ainda não há reconhecimento dos jogos de não oxigenação como causa de morte.
O rapaz, segundo ele, morreu no próprio apartamento da família, onde estava com amigos que confirmaram a prática do desafio. "Ele foi socorrido por um vizinho, mas não resistiu", lamenta. Ao colher informações com familiares de um dos amigos, descobriu que o filho primeiro assistiu colegas realizarem o jogo, depois participou de um desafio e, na terceira vez, convidou outros amigos para compartilhar a experiência na própria casa, quando aconteceu a tragédia. "Ele nadava em mar aberto, tinha muita autoconfiança e achou que era capaz. Todos achavam que era uma brincadeira inocente, visto que não envolvia bebidas ou drogas", acrescenta.
Adauto conta que Breno aspirou todo o resíduo do desodorante, teve um bloqueio das vias respiratórias e acabou sufocando. "O pior é que eles tiraram a ideia de fazer isso do YouTube, onde há milhares de vídeos ensinando", acredita.
Hoje, em memória do filho, o pai dá palestras sobre o assunto em escolas e igrejas. A reação de muitas pessoas da plateia, que o procuram para relatar a prática da brincadeira, é um dos motivos que o mantém firme na decisão de trabalhar a conscientização dos jovens. "Tinha um diálogo aberto com meu filho e não consegui evitar a morte. Por isso acho importante fazer o alerta", diz.


