AL tem 1,3 milhão de infectados com HIV
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domingo, 09 de dezembro de 2001
Diego Cevallos<br>Agência Envolverde - Da Cidade do México 
O mexicano Hugo Estrada, 43 anos, é portador do vírus HIV há cinco anos e se declara feliz. Estrada tem estudos de pós-graduação, acesso a medicamentos anti-retrovirais, atenção médica contínua e recebe terapia com psicólogos e tanatólogos. Além disso, conta com os benefícios de uma pensão por ''incapacidade'' e a sua família o apóia.
O caso de Estrada é corriqueiro em um país industrializado, mas, na América Latina, onde vivem um milhão e meio de pessoas com Aids, 130 mil das quais se infectaram durante 2001, é uma exceção. ''Sou um privilegiado'', reconhece.
Sua boa sorte, argumenta, está ligada a ter seguro social estatal e educação superior, mas sobretudo à sua liderança em uma organização de portadores do vírus, a Frente Nacional de Pessoas Afetadas pelo HIV, no México. ''Não posso pensar em um futuro muito longo, mas, com o tempo que me resta e a esperança de novos medicamentos, posso sempre ir à luta'', diz.
Os ativistas pelos direitos dos portadores do vírus reconhecem que há na América Latina importantes avanços no atendimento médico, o que tem a ver com a descoberta de novos medicamentos, especialmente os anti-retrovirais, que, ao destruir ou evitar a propagação do HIV, transformaram a Aids em uma enfermidade crônica. Todavia, um número elevado de pessoas infectadas continua excluído dos serviços de saúde e marginalizado socialmente.
Muitos portadores do vírus são membros de comunidades que, por seus níveis de pobreza e baixa escolaridade, não reivindicam os tratamentos disponíveis e, quando o fazem, os assumem sem muita disciplina. ''Em relação à Aids, o problema não é apenas individual, mas também social'', sustenta Marclei Guimarães, um sociólogo brasileiro aidético. ''Com baixa renda, a adesão (aos tratamentos) é baixa, não por falta de vontade, mas por condições sociais objetivas'', assinala.
Em países como os Estados Unidos, onde o atendimento aos portadores de Aids é considerado de qualidade, o gasto per capita em saúde é de US$ 4.180. Na América Latina, esse mesmo atendimento é de US$ 349 em média, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. ''Não podemos nos comparar a um país rico. Na América Latina, são poucos os que oferecem atendimento similar aos dos Estados Unidos'', afirma Hugo Estrada.
Mas há avanços. Na Venezuela, onde o Tribunal Supremo de Justiça declarou em abril que todos os portadores do vírus da Aids devem ter cobertura médica, incluído o fornecimento de medicamentos, elevou-se o número de atendimentos de dois mil para 10 mil, entre fins de 2000 e este ano. No Brasil, 105 mil portadores de HIV recebem atendimento gratuito do governo e a quantidade aumenta entre 15 e 20 mil pessoas por ano. Não obstante, há evidências de que tanto no Brasil quanto na Venezuela cerca de 500 mil pessoas a mais, não constantes de qualquer registro, estarão enfermas.
Esse país de fala portuguesa brilha por sua capacidade de produção de medicamentos genéricos contra a Aids, depois de enfrentar a feroz resistência das multinacionais farmacêuticas em defesa de suas patentes. ''O êxito do programa brasileiro se deve à resposta precoce (do governo) à Aids, à participação da sociedade civil e à defesa, nos âmbitos nacional e internacional, do acesso a todos os medicamentos'', assegura Rosemeire Munhoz, coordenadora-adjunta do programa de Aids do Ministério da Saúde. Quarenta e oito por cento de todos os medicamentos contra a Aids distribuídos pelo Brasil em 2000 (a um custo de US$ 303 milhões) foram produzidos por laboratórios nacionais.
O Chile também registra avanços. O Estado pode assegurar hoje terapia anti-retroviral a 81% das 3.212 pessoas com prescrição de tratamento, quase o dobro de anos anteriores. Avalia-se que esse país tem 40 mil portadores do HIV. ''O Estado chileno deve impor-se a meta de atender a todos os enfermos, da melhor maneira possível, mas, se não o consegue, não infringe nenhuma lei'', declara Cinthya Morales, do Conselho de Defesa do Estado. Essa postura é combatida pelas organizações não-governamentais. O Estado deve atender a todos, sem exceção, sustentam os ativistas de países da região.
''A ampliação da cobertura no Chile foi conseguida, em parte, graças às negociações do governo com cinco empresas farmacêuticas, que permitiram reduzir os preços dos medicamentos em 50% em média'', informa Gloria Berrios, funcionária da Comissão Nacional da Aids.
No México, o Estado atende, com anti-retrovirais, cerca de 20 mil pessoas, 85% dos enfermos, segundo Carlos Magis, diretor de pesquisa do Centro Nacional para a Prevenção e Controle da Aids. Os ativistas acreditam que essa porcentagem é menor se forem considerados os sub-registros; haveria, na verdade, 120 mil pessoas infectadas. Ademais, há no México 4,4 mil portadores que não dispõem de previdência social. Sua única alternativa para receber medicamentos é conseguir entrar em um programa especial do governo que, todavia, só tem vagas para duas mil pessoas. ''A única opção pode ser a de fechar-se em casa para esperar a morte'', lamenta Estrada. (Colaboraram Mário Osava/Brasil, Gustavo Gonzalez/Chile e Andrés Canizalez/Venezuela)


