País com maior potencial agrícola internacional, o Brasil vive um momento de riscos e oportunidades para o setor do agronegócio. Por um lado, enfrenta conjuntura econômica com dólar cada vez mais forte, câmbio com grande volatilidade e um fator novo e preocupante: a contaminação da economia pela instabilidade política. Por outro, tem um agronegócio organizado e capitalizado nas maiores regiões produtoras – como é o caso do Sul -, que também vão se beneficiar pela previsão de chuvas durante a safra, graças à confirmação do fenômeno El Niño.
Diante deste cenário, como aproveitar as oportunidades ofertadas pelo mercado sem correr riscos diante das mudanças na economia mundial? Esse foi o tema da palestra de Alexandre Mendonça de Barros durante o 5º EncontrosFolha, realizado na última semana em Londrina, por iniciativa do Grupo Folha de Comunicação em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC). Nesta edição, o evento tratou do tema "Desafios do agronegócio no Paraná: produzir, transformar e exportar". Agrônomo, doutor em economia aplicada e professor da FDC, Barros buscou responder a esse questionamento durante palestra para uma plateia formada por produtores rurais, pesquisadores e lideranças de Londrina. O evento foi patrocinado por Unifil, Agro 100, Banco Regional de Desenvolvimento (BRDE), Cocamar, Cooperativa Integrada, Seara e Vectra.
Ele analisou a macroeconomia mundial para situar o momento atual do agronegócio. Logo no início, avisou que, em tempos de volatilidade do dólar, o erro que não pode ser cometido é comprar insumos com a moeda americana supervalorizada para depois vender a safra quando a cotação eventualmente cair. "É fundamental travar os custos", disse. O palestrante ressaltou que o momento também é de olhar para fora, pois há muitas oportunidades para exportação. "Nós (o Brasil) estamos baratos aos olhos do mercado internacional", pontuou.
Para o palestrante, o momento é de virada nos preços relativos dos produtos agrícolas no mundo inteiro. Segundo ele, a tendência observada até cinco anos atrás era de queda nas cotações, mas esse quadro se reverteu no final da década passada, quando os preços subiram além do esperado, motivados por especulação dos fundos de investimento em torno da queda do dólar e a expansão do consumo na China.
De acordo com Barros, o momento atual indica um retorno à conjuntura anterior, com dólar forte e câmbio volátil. A dúvida, agora, é sobre como vão se comportar os agentes que, até então, favoreceram os bons resultados das commodities para os produtores brasileiros. As apostas dependem principalmente do poder de consumo da China e se o País fará mudanças nas estratégias de exportação. Os olhos do mercado se voltam também para a Índia que, segundo o palestrante, pode ser – ou não – a "nova China" em termos de potencial de consumo.
Os Estados Unidos, segundo o especialista, voltaram a ser a maior economia do mundo, com projeção de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,6% em 2015 e 2,8% no ano que vem. O Brasil, ao contrário, terá queda de 3% no PIB neste ano, sem sinalização de recuperação econômica em 2016, quando deve reduzir mais 1%. Entre os emergentes, China e Índia continuam crescendo expressivamente, na ordem de 6,3% e 7,5%, respectivamente, até o final do ano.
Na contramão da economia brasileira, o agronegócio nacional vai crescer 4% em 2015. Os problemas do setor no País decorrem da macroeconomia desequilibrada, com redução no padrão de consumo dos brasileiros, aumento de desemprego e inflação alta, que deve chegar a 10% até o final do ano. "O consumo per capita caiu 12% no segundo semestre", antecipou.
O atual cenário político nacional também aumenta a instabilidade econômica e interfere em questões pontuais importantes para o agronegócio, como a negociação de acordos no mercado internacional.

Safra
A previsão do tempo sinaliza uma boa safra para os produtores de grãos no Sul do País, que vão se beneficiar pela chuva abundante provocada pelo fenômeno El Niño. A expectativa é que o Brasil produza 100 milhões de toneladas, caso os estados do Nordeste não sofram quebras importantes por causa da seca provocada pelo mesmo fenômeno na região. Diante da previsão da safra dos Estados Unidos atingir 106 milhões de toneladas, ele aposta que o preço da oleaginosa deve ficar em torno de R$ 80,00 a saca no porto, com possibilidade de altas em dezembro e janeiro.
A primeira safra brasileira de milho, por sua vez, deve chegar a 30 milhões de toneladas se o clima colaborar. Já a segunda safra pode atingir o volume de 55 milhões de toneladas. O analista aposta em alta de 5% a 7% no preço do grão, com possibilidade da saca chegar a R$ 40,00 no porto. O desafio, segundo Barros, é aproveitar o momento para exportar, pois o mercado continua comprador. "No ano passado o Brasil exportou 30 milhões de toneladas, um recorde", apontou, lembrando que o o Brasil exporta 50 milhões de toneladas de soja. "A diferença entre os dois produtos está diminuindo", analisou.

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