Dez anos após a liberação do plantio da soja transgênica no Brasil, as polêmicas que marcaram a implantação da tecnologia parecem ter ficado para trás. As variedades geneticamente modificadas já ocupam 88% das áreas cultivadas nesta safra 2013/2014. No Paraná, o índice é ligeiramente maior, de 93%. Associada às tecnologias que permitiram o grande aumento de produtividade na década, a adoção das sementes transgênicas, por outro lado, começa a impor desafios aos produtores e à assistência técnica. Usadas principalmente porque facilitam o manejo das ervas daninhas, por serem resistentes ao agrotóxico aplicado no controle, as variedades transgênicas passaram a perder essas características em áreas onde as plantas invasoras desenvolveram tolerância ou resistência ao produto.
Na safra 2003/2004, quando o plantio dos transgênicos foi liberado, o Brasil produzia 50 milhões de toneladas de soja em 21 milhões de hectares (ha). Dez anos depois, a área aumentou para 29,3 milhões de ha e a produção, para 89 milhões de toneladas. "O salto de produtividade foi influenciado por variáveis que não apenas a biotecnologia, como investimento em equipamentos modernos, adubação eficiente e a capacitação dos agricultores. O mercado aquecido, principalmente pela demanda da China, capitalizou os produtores e permitiu que fizessem investimento em tecnologia", analisa Flávio Turra, gerente técnico da Ocepar. O mesmo vale para o milho, cuja produção passou de 42 milhões de toneladas para 80 milhões de toneladas na década. A área, no período, aumentou de 12,8 milhões de ha para 15,5 milhões de ha.
Apesar dos números, Turra esclarece que a maior vantagem dos grãos geneticamente modificados não está na redução dos custos de produção, mas na facilidade do manejo da lavoura. O sucesso da tecnologia está ligado principalmente ao fato de os produtores terem incorporado rapidamente o jeito de manejar a lavoura usando sementes transgênicas, visto que a aplicação dos herbicidas é mais fácil. No Paraná, a ampla adoção do sistema de Plantio Direto, com distribuição das sementes sobre a palha da cultura anterior, favoreceu ainda mais a adesão às variedades geneticamente modificadas.
O uso repetitivo da tecnologia, entretanto, começa a apresentar problemas. Em algumas áreas de soja já aparecem ervas invasoras resistentes ao herbicida utilizado para controle. Além disso, em propriedades onde se planta a soja RR (tolerante ao herbicida) após o cultivo do milho transgênico com as mesmas características, o próprio milho torna-se invasor. Uma solução para minimizar a dificuldade seria a alternância do plantio com a soja convencional.
A medida, porém, não tem se mostrado lucrativa ao produtor, que além de receber um prêmio pouco atrativo pela comercialização do produto não transgênico – que supera em até R$ 6 o valor pago pela saca da oleaginosa geneticamente modificada –, também encontra dificuldades para segregar a produção transgênica da convencional nos armazéns e em outras etapas logísticas do escoamento da safra. Além disso, encontrar sementes tradicionais no mercado tem se tornado cada vez mais difícil, visto que os produtores de semente investem principalmente nas geneticamente modificadas.
Em lavouras de milho onde se usam as variedades BT, resistentes à lagarta de cartucho, é importante manter uma área de refúgio de 20% com o plantio de variedades convencionais para evitar que o inseto torne-se rapidamente resistente. Os produtores, entretanto, enfrentam as mesmas dificuldades impostas à soja.
Francisco Simioni, diretor de Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (Seab), aponta que a monocultura da soja também é preocupante. Na atual safra, a cultura ocupa 84,4% da área, o que corresponde a 4,9 milhões de ha. O milho, por sua vez, ficará restrito a 695,1 mil ha. "O produtor está apostando todas as fichas em uma só cultura", avisa, acrescentando que a decisão pode trazer prejuízos econômicos e sociais. No Estado, a produtividade da soja aumentou de 2,7 mil quilos por ha para 3,3 mil quilos por ha de soja na década. Já o milho passou de 6,5 mil quilos por ha para 8,3 mil quilos por ha no período. "As vantagens e desvantagens devem ser medidas por quem produz", considera.
Para Turra, independentemente das dificuldades, as sementes geneticamente modificadas "vieram para ficar", inclusive porque não há rejeição do mercado aos produtos. "O que será necessário é a modificação da tecnologia", considera. Para ele, poderia haver resistência se os transgênicos fossem aplicados a grãos utilizados na alimentação humana, como é o caso do trigo e do arroz. Nestas situações, o especialista aposta que a modificação genética seria aceita se trouxesse melhoria na qualidade nutricional dos alimentos.

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