"No fundo as mães sempre sabem. Eu sempre soube", conta Renan Cavalari Popowicz, filho de Andreia Cavalari
"No fundo as mães sempre sabem. Eu sempre soube", conta Renan Cavalari Popowicz, filho de Andreia Cavalari | Foto: Fotos: Ricardo Chicarelli


Descobrir-se pai ou mãe de um filho LGBT pode não ser fácil, mas não há conversa, reza, surra ou tratamento que vá mudar essa condição. Ser gay, lésbica, travesti ou transgênero não é uma fase, não é uma escolha. É uma descoberta que, em grande parte das vezes, acontece em uma fase turbulenta da vida de qualquer pessoa, LGBT ou não, que é a adolescência. É importante os pais, ao se depararem com a orientação sexual de seus filhos, não se tornarem mais um problema com o qual os jovens terão de lidar em um período já tão repleto de dúvidas e questionamentos.

Experiências vivenciadas por algumas famílias mostram que mães e pais que saem do armário junto com seus filhos só têm a ganhar. Ganham em cumplicidade, em companheirismo, em reciprocidade e o resultado são pessoas e laços de afeto ainda mais fortalecidos. Por maior que seja o choque inicial, mães e pais na diversidade sabem que mais do que aceitar a orientação sexual de seus filhos, é preciso compreender, acolher e apoiar.

A assistente administrativa Andreia Regina Cavalari é mãe de um único filho, o ator Renan Cavalari Popowicz, 26, assumidamente gay. De personalidade forte, ele diz que desde pequeno nunca se preocupou com a opinião alheia na hora de se vestir ou de escolher os seus brinquedos e não foi preciso revelar sua orientação sexual dentro ou fora de casa. "No fundo a gente sabe e as mães sempre sabem. Eu sempre soube", conta. "Não lembro de quando percebi que gostava de meninos. Mas minha admiração pelas mulheres sempre foi de outra forma."

Mesmo assim, nunca sentiu liberdade para se expressar como gostaria. Renan sofria bullying na família e na escola. Ele vivia em uma cidade pequena e a mãe não tinha a mente aberta de hoje em dia. "Sempre notei no Renan essa diferença, mas foi complicado porque eu não tinha maturidade naquela época. Fui mãe muito jovem, com 16 anos. A gente imagina que o filho vai crescer, que vai ser avó", recorda Andreia, que ficou estarrecida quando pegou uma carta que o filho, então com 15 anos, havia escrito para um menino por quem estava interessado. O papel sulfite amarelo com a letra de Renan era a comprovação do que seu coração de mãe já lhe dizia há muitos anos. "Foi muito difícil. Nunca tinha tido um caso desse na família. Tentei conversar com o pai do Renan, de quem eu já estava separada, mas ele me disse que o problema era meu."

Renan não se incomodava com sua orientação sexual, mas ficava triste por enfrentar tanto preconceito. Quando completou 18 anos, foi embora para São Paulo. A dor da separação foi a responsável por Andreia mudar sua forma de lidar com a homossexualidade do filho. "Ficar longe dele foi muito difícil. Eu me acabei. Pedia que viesse embora, mas ele não queria voltar para uma cidade pequena onde ninguém o aceitava. Então propus irmos embora para outra cidade. Tinha uma vida bem estabilizada, era casada com meu segundo marido, mas já estava tudo virado."

Renan havia conseguido um emprego em Arapongas e, sem conhecer a cidade nem ter amigos aqui, mãe e filho mudaram-se para Londrina. "No começo foi difícil para nós porque não conhecíamos ninguém. No primeiro ano, a gente nem saía de casa, ficávamos só nós dois. Estava em depressão", relembra Andreia.

As coisas começaram a mudar quando Renan iniciou um curso de teatro, o que o estimulou a ingressar na faculdade, para surpresa e felicidade da mãe. Ela também conseguiu um emprego e a vida foi ganhando outras cores. "Vi que para eu estar bem, era o Renan estar bem."

Andreia mostrou a Renan que mesmo que o mundo lhe vire as costas, seus braços estarão sempre abertos para acolhê-lo, protegê-lo, acarinhá-lo e, sobretudo, amá-lo. Hoje, para ela, a orientação sexual é apenas uma das características que compõem o ser humano repleto de virtudes que é Renan. "Cor não tem gênero, amor não tem gênero. A gente se apaixona por almas, não por uma genitália", diz a mãe. "Eu teria que passar por um tratamento psicológico se o Renan chegasse hoje e falasse que está namorando uma mulher. Adoro ter um genro."

A mãe sabe que, por ser gay, o filho estará sempre mais exposto a situações de violência, preconceito e discriminação do que um heterossexual e decidiu estender seu apoio a outras pessoas. Juntamente com cerca de dez mães e pais, ela integra o braço londrinense do coletivo nacional Mães pela Diversidade, criado em 2014, em São Paulo. O movimento é formado por familiares de LGBTs com o objetivo de lutar pelos direitos desse público. "Mexer com o meu filho é uma coisa, mexer com a mãe dele é outra. E não é só com o meu filho, é com quem estiver ao meu lado. A gente tem que se posicionar e não pode ter medo", diz Andreia. "Se alguém vier falar alguma coisa, tem que passar pela mãe primeiro."

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