Reconstruir a vida depois do trauma de uma violência sofrida dentro do próprio lar é o objetivo das sete mulheres que vivem provisoriamente na Casa de Maria, em Curitiba, ao lado dos filhos pequenos – incluindo as crianças, 17 das 20 vagas estão ocupadas hoje. O espaço, mantido pela prefeitura da cidade, é o único público a abrigar vítimas de agressões, geralmente encaminhadas pelos centros de referência da assistência social.
Para preservar a integridade e garantir a segurança de quem lá está, o endereço é mantido sob absoluto sigilo. A FOLHA usou esse mesmo critério para não divulgar os nomes verdadeiros das entrevistadas. Apesar de todo o cuidado em não revitimizá-las, por vezes foi difícil conter a emoção. Ainda assim, as mulheres dizem acreditar que, ao compartilhar suas histórias, podem sensibilizar outras pessoas, para que também deem um basta no círculo de opressão e abuso a que foram submetidas.
"São casos de depreciação, xingamentos, desrespeito, desvalorização e agressão física. Quando elas chegam, é feito um plano de ação, com profissionais especializados. Por ser um local de passagem, o tempo de permanência é curto – no máximo alguns meses", explica uma das responsáveis pelo atendimento. "Durante esse período, elas buscam se empoderar para seguir suas vidas. Auxiliamos na procura por creches e oferecemos cursos, para que as mães sejam inseridas no mercado de trabalho."
Antônia*, de 20 anos, natural de Ponta Grossa, chegou à pousada há pouco mais de uma semana, acompanhada da filha de 2 anos. Como muitas das mulheres com quem convive, só conseguiu se libertar do relacionamento violento quando foi acolhida pela instituição. O maior entrave era o fato de depender financeiramente do ex-companheiro. "Ele me xingava e me humilhava. Bebia, batia e dizia que eu não tinha para onde ir. Na Delegacia da Mulher, disseram que seria preciso o flagrante. Foi então que eu fiquei sabendo daqui."
Da Casa de Maria, a jovem aguarda a execução da medida protetiva, prevista na Lei Maria da Penha, e a decisão da Justiça sobre seu pedido de guarda da filha. Ao mesmo tempo, começa a procurar um trabalho, se possível na área de telemarketing. "Posso até passar fome, mas não quero mais (o ex-marido). Ninguém sabe o que eu estou sentindo. Choro, tenho pesadelo, imagino ele chegando e pegando a minha filha. É fácil falar: ‘você é nova e inteligente’. Mas para quem não teve um dia de felicidade sequer... ", lamenta.
Se engana, porém, quem pensa que o machismo e a misoginia atingem apenas pessoas pobres. A carioca Rosângela*, de 27, morava sozinha em Curitiba, cidade pela qual se apaixonou cinco anos atrás. "Eu trabalhava, tinha conta em banco e a minha independência financeira. Então conheci o pai do meu filho, abri mão de tudo e fui morar com ele". Segundo ela, o garoto, de um 1 ano e seis meses, foi muito planejado. O que Rosângela não esperava eram as agressões por parte do então companheiro.
"Na primeira vez que ele me bateu, corri para a delegacia e fiz o boletim de ocorrência, que não deu em nada, porque decidi retirar (a queixa) e dar mais uma chance. Depois da terceira, voltei, fiz o exame de lesão corporal - tinha manchas roxas pelo corpo e arranhões – e levei adiante. Ele agora vai responder por tudo o que fez." Hoje, a jovem se diz pronta para arranjar outro emprego, brigar pela guarda do filho e "se reerguer".
Há na Casa de Maria, ainda, casos como o de Amanda*, de 30, propensa a dar uma nova chance ao homem com quem é casada há dez anos. "Esse foi o primeiro episódio de agressão. Fiquei surpresa. Ele sempre foi muito calmo. Mas bebe e não andava muito bem. Dizia que ficava com medo que faltasse algo para a gente." Numa noite de sábado, ela acordou com o marido dando socos na porta. "Pedi para ele não acordar a nossa filha (de 2 anos) e foi o suficiente." Agora, Amanda aguarda o retorno de uma assistente social, que se propôs a conversar com o homem. "Vou ver se a gente volta ou se eu tomo outro caminho. Sei que ele não é assim. Só que já ouvi que quem faz uma vez, faz outras", pondera. (M.F.R.)

* Os nomes utilizados são fictícios

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