À beira do abismo
Os depoimentos de usuários que tentam se livrar do vício comprovam que o crack atinge indistintamente homens e mulheres, de diversas faixas etárias e classes sociais.
Em um centro de recuperação de Londrina, a FOLHA encontrou a vendedora Rosângela Cândido, de 46 anos, e sua história de queda e ascensão. ''O crack me levou ao fundo do poço. Me fez abandonar família, emprego, dignidade, amigos. Perdi tudo, até a confiança em mim mesma. No fim, estava morando na rua'', conta a mãe de três filhos, que agora tenta recuperar o que ficou para trás.
Encaminhada pelo Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps-AD), Rosângela experimenta, pela primeira vez em 11 anos de convívio com o crack, a sensação de viver longe dos seus efeitos. ''Esta é a primeira vez que enfrento o abandono da droga. E também o último, porque eu não vou voltar a ela'', diz, confiante. Rosângela conta que está ''limpa'' há 4,5 meses, e que aos poucos retoma o contato com a família. ''Cheguei à beira do abismo, fiquei com um pé na morte e outro na vida. Hoje só penso em edificar minha vida novamente.'' Rosângela é uma das residentes do Centro de Assistência e Recuperação de Vidas Morada de Deus, e como outros que lá se recuperam, se apega à fé para vencer as dificuldades.
O pedreiro, eletricista e agora cozinheiro Wagner Domingues, de 42 anos, tem história parecida, embora o contato com o crack e a cocaína tenha sido mais breve. Ele chegou ao centro de recuperação no dia 26 de dezembro e não esconde a alegria de estar conseguindo viver sem as drogas. ''Ainda não me sinto preparado para sair daqui, mas estou bem melhor. O que eu mais sinto é ter jogado fora três anos da minha vida. Perdi o contato com meus filhos, a confiança das pessoas. Agora isso começa a mudar. Já recebi visitas de familiares e amigos, o que é maravilhoso.'' (S.L.)





