A vontade de consumir alimentos naturais esbarra em uma dificuldade que faz parte da rotina de grande parte dos brasileiros: a falta de tempo. A administradora Alcione Santos Cunha, 26, conhece bem esta realidade. Como trabalha de dia e estuda à noite, ela escolhe as refeições de acordo com o que encontra na geladeira e, na maioria das vezes, opta por produtos que sejam mais práticos. Ao fazer esta opção, ela depende diretamente das indústrias para levar à mesa produtos adequados à boa saúde. "Compro legumes e verduras quando faço uma compra maior, uma vez por mês. Mas no dia a dia nem sempre consigo preparar. Acabo escolhendo o que é mais fácil e fico com os industrializados", diz.
Ela costuma observar o prazo de validade e quantidade de sódio contida nas embalagens. Mas admite que, na hora da pressa, muitas vezes coloca o alimento no carrinho sem olhar outras informações. Por isso, é favorável à divulgação de um selo que ateste que os alimentos expostos são saudáveis. "Com certeza, se tivesse a informação clara sobre a qualidade do produto e as quantidades de gordura, açúcar e sódio, eu faria melhores escolhas", afirma.
Na casa do comerciante Michel Abrão, a disponibilidade da esposa em preparar os alimentos em casa é o que garante a saúde da família. Com hábito de realizar compras semanais, ele privilegia alimentos naturais ou pouco processados, como farinha e açúcar, além de itens matinais como requeijão e margarina. Pães, bolos e biscoitos são todos feitos em casa, o que, segundo ele, garante mais sabor, saúde e economia.
Pai de dois filhos adultos, ele conta que antes deles nascerem o consumo de industrializados era maior. "Depois desenvolvemos a cultura de fazer em casa, como era hábito dos nossos pais", relata.
Abrão costuma ler os rótulos de produtos industrializados com cuidado e opina que as informações não permitem à população escolher o que é mais saudável. "As mensagens não são claras porque as indústrias informam o conteúdo apenas para cumprir a lei", critica.
Ele defende, por isso, que haja uma maior fiscalização sobre o processo de industrialização dos alimentos para garantir ao consumidor um produto de qualidade.

Suco de verdade
Na outra ponta da cadeia produtiva, uma indústria de suco de frutas apostou na transparência dos rótulos e no investimento em tecnologia para garantir ao consumidor a possibilidade de escolha de produtos condizentes com as informações contidas na etiqueta. Produzido no interior de São Paulo, a linha de sucos Natural One oferece embalagens com 100% de suco de frutas fresco, sem conservantes ou açúcar (com exceção do suco de limão) adicionados, o que é explicado em letras grandes nos rótulos. "Nosso objetivo é promover uma alternativa ao consumidor que faz questão de produtos naturais mas nem sempre tem tempo ou disposição para prepará-los em casa", esclareceu Adriano Kowaleski, diretor comercial e de marketing da empresa.
Para conseguir chegar ao produto final, a indústria investiu em alta tecnologia, como por exemplo o uso de alta pressão para eliminar micro-organismos ou a pasteurização a frio. "O ácido cítrico adicionado é o da própria fruta. A maior parte dos sucos é adoçado com maçã", complementa.
Para garantir a qualidade, a empresa se preocupa com a origem da matéria-prima. "Este cuidado evita que o produto final não tenha qualidade. Se o produto é bom, não precisa ser corrigido com aditivos", diz.
De olho em um mercado que consome mais de dois milhões de sucos feitos em casa no Brasil, contra 1,1 milhão de litros de suco industrializado, Kowaleski garante não temer possíveis regulações do setor industrial sobre rotulagem, publicidade e presença de aditivos, pois já adotou as práticas defendidas pelos projetos que visam oferecer mais transparência às relações de consumo. Segundo ele, quando o governo passar a exigir uma quantidade mínima de frutas nas bebidas que substituem os sucos, como é o caso dos nectares, a Natural One também não terá que se adaptar porque oferece apenas suco nas embalagens. "Saímos na frente", acredita.

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