400 para 6 milhões
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sábado, 03 de maio de 2014
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Uma infância e adolescência saudável e plena é o que se deseja para cada bebê brasileiro que nasce todos os dias nas diversas regiões do País. Aqueles que vierem a enfrentar transtornos mentais ou emocionais ainda nos primeiros anos de vida podem se deparar, entretanto, com a realidade de falta de cuidados que beira a negligência.
Apesar de necessitarem de acompanhamento especializado para superarem as dificuldades e experimentarem a chance de ter uma vida adulta saudável e com menos sofrimento, a rede pública de atendimento nem sempre tem condições de oferecer o que precisam.
A psiquiatra da infância e adolescência Ivete Gattás, coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência (Upia) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avalia que esse descaso tem tristes consequências.
De acordo com ela, meninos e meninas com necessidade de atendimento em saúde mental demoram, em média, três anos para conseguir acesso ao serviço.
"Os centros de referência são concentrados e vivem lotados. Nesta área, estamos sempre correndo atrás do prejuízo", denuncia. O custo social da falta de cuidados com essa parcela da população é alto. "A criança que não recebeu tratamento vai crescer e se transformar em um adulto que não produz e gera custos para o Estado."
A psiquiatra revela que o Brasil possui seis milhões de crianças que necessitam de atendimento em psiquiatria. Existem hoje no País apenas 400 psiquiatras da infância e adolescência capacitados, a maioria deles concentrados nos Estados do Sul e Sudeste. Além disso, profissionais da área de atendimento básico em saúde não recebem capacitação profissional para lidar com transtornos mentais entre os mais jovens e não há, na maioria dos municípios, um fluxo de atendimento organizado para dar continuidade ao tratamento.
Ivete cita algumas estatísticas para reforçar a necessidade de investir em atendimento em saúde mental de qualidade para essa faixa etária. Segundo ela, metade dos transtornos mentais que se manifestam na vida adulta já começam a dar sinais na infância e na adolescência. Além disso, os índices de prevalência de alguns transtornos na população com menos de 18 anos indica necessidade de um olhar mais cuidadoso para a questão.
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), por exemplo, incide entre 5% a 7% das crianças e adolescentes. Já os transtornos de ansiedade e depressivos são observados em 3% a 5% das pessoas com menos de 12 anos. O transtorno obsessivo compulsivo (TOC) é menos comum, incidindo em 0,5% a 1% da faixa etária. Os transtornos de espectro autista têm alta prevalência, incidindo em uma a cada cem crianças.
"Os adultos fantasiam que as crianças são felizes o tempo todo, que não padecem de sofrimento, estresse ou agressão. A verdade é que elas são expostas a tudo isto e têm muito menos recursos para lidar com as dificuldades", alerta. Ao observar sinais de sofrimento, o recomendável é procurar ajuda profissional o mais rápido possível pois, segundo a especialista, intervenções realizadas ainda na infância aumentam as chances do indivíduo ter uma "vida normal" na idade adulta. "É claro que alguns sintomas são transitórios e não precisam ser decifrados. Mas o senso comum costuma achar que os problemas emocionais na infância sempre passam sozinhos", pondera.
Sinais precoces
A psiquiatra informa que problemas graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar, podem apresentar os primeiros sinais precocemente. "Em muitos casos, quando colhemos a história do paciente, percebemos que ele não estava bem desde a adolescência, mas o problema passou despercebido, foi negligenciado", critica.
O diagnóstico de que algo não vai bem começa com a observação dos pais e professores e passa por psicólogos e neuropediatras que levantam suspeitas e encaminham para o psiquiatra infantil, responsável por fechar o diagnóstico médico. Um problema apontado por Ivete é que os pediatras, que têm contato frequente com as crianças, muitas vezes demoram para fazer o encaminhamento porque, na própria formação, não receberam noções básicas de psiquiatria da infância. Após o diagnóstico, é indicado que a criança ou adolescente se submeta ao tratamento, que pode incluir medicamentos e também atendimento por psicoterapeutas, pedagogos, fonoaudiólogos e psicopedagogos.
Outro aspecto destacado pela psiquiatra é a falta de leitos hospitalares para internar temporariamente as crianças e adolescentes cujo comportamento agressivo pode colocar a vida do próprio paciente ou de familiares em risco. "Ampliar o número de leitos é uma necessidade urgente", diz, lembrando que os locais para receber os mais jovens precisa ter equipe treinada e ambiente adequado. "Nestes casos, apesar da indicação de internação ser sempre de urgência, é comum haver fila", lamenta.


